Estados Unidos

Green Card por loteria (Diversity Visa) 2026: como brasileiros participam e quais as chances reais

A sorteio de imigração mais famoso do mundo acontece uma vez por ano, e todo mês de outubro milhares de brasileiros acessam o site oficial do governo dos Estados Unidos na esperança de serem selecionados. O Diversity Visa Program, conhecido popularmente como Green Card Lottery, promete distribuir até 55 mil vistos de residente permanente a cidadãos de países com baixas taxas de imigração para os EUA. Mas existe um detalhe que muita gente só descobre depois de já ter preenchido o formulário: nem todos os países são elegíveis, e o Brasil figura na lista de excluídos desde 2018. Ainda assim, existem caminhos pelos quais brasileiros conseguem participar — e entender essas exceções é o que separa quem perde tempo de quem tem uma chance real.

O que é o Diversity Visa Program e como surgiu

O programa foi criado pela Immigration Act of 1990 com o objetivo de diversificar a origem dos imigrantes que chegam aos Estados Unidos. A lógica é simples: países que enviaram mais de 50 mil imigrantes nos cinco anos anteriores, nas categorias de visto familiar e profissional, são considerados “alta admissão” e ficam de fora. Os demais podem participar de um sorteio eletrônico anual conduzido pelo Departamento de Estado.

A cada edição, são disponibilizadas até 55 mil visas por lei. Na prática, deduções obrigatórias por legislações como a NACARA e a NDAA reduzem esse número para aproximadamente 51.600 a 52.000 vistos efetivos. Para o DV-2026, o número de vistos disponíveis foi de cerca de 51.850 após essas deduções.

O programa passou por um período turbulento recentemente. Em dezembro de 2025, a emissão de diversity visas foi suspensa por ordem executiva do governo americano, em resposta a um incidente envolvendo um imigrante que havia entrado no país pelo programa. A suspensão durou mais de oito meses, e a emissão só foi retomada em 28 de agosto de 2026, após uma decisão judicial federal que considerou a pausa ilegal. Apesar dessa interrupção, o programa continua ativo e o Departamento de Estado confirmou que a pausa não está mais em vigor.

Por que o Brasil está fora da loteria

O Brasil foi incluído na lista de países inelegíveis a partir do ciclo DV-2019 e permanece nessa condição desde então. O motivo é puramente numérico: nos cinco anos anteriores a cada edição, mais de 50 mil brasileiros imigraram para os Estados Unidos por meio de vistos familiares e profissionais, ultrapassando o limite definido pela lei. Uma vez que um país cruza essa linha, permanece inelegível até que o volume de imigração caia abaixo dos 50 mil — algo que, no caso brasileiro, ainda não ocorreu.

Para o DV-2026, a lista completa de países inelegíveis incluiu 19 nações: Bangladesh, Brasil, Canadá, China (incluindo Hong Kong), Colômbia, Cuba, El Salvador, Haiti, Honduras, Índia, Jamaica, México, Nigéria, Paquistão, Filipinas, Coreia do Sul, Venezuela e Vietnã. A Embaixada dos EUA no Brasil confirma em seu site oficial que quem nasceu no Brasil não pode participar do DV-2026.

Isso não significa que a situação seja permanente. Países como Equador, Guatemala, Polônia, Peru e Rússia já estiveram na lista de excluídos e depois voltaram a ser elegíveis quando os números de imigração caíram. Não há como prever quando o Brasil sairá da lista, mas a cada ano o Departamento de Segurança Interna recalcula os dados e atualiza a relação de países elegíveis.

Cross-chargeability: o caminho pelo qual brasileiros ainda participam

Mesmo com o Brasil inelegível, existe uma bregra legal que permite a brasileiros participarem do sorteio: a chamada cross-chargeability, ou “país de elegibilidade alternativo”. As regras do programa dizem que o país de elegibilidade é, por padrão, o país de nascimento. Mas existem duas exceções que abrem portas para quem nasceu em solo brasileiro.

A primeira exceção é o país de nascimento do cônjuge. Se um brasileiro for casado com alguém nascido em um país elegível — Portugal, Argentina, Uruguai, praticamente qualquer país europeu ou africano que não esteja na lista de inelegíveis —, pode usar o país do cônjuge como seu país de elegibilidade. Não é preciso ter dupla nacionalidade nem ter qualquer visto do país do cônjuge; basta a certidão de casamento e a certidão de nascimento do parceiro.

A segunda exceção se aplica quando o solicitante nasceu em um país onde nenhum dos pais nasceu e onde os pais não eram residentes legais no momento do nascimento. Por exemplo, se seus pais são portugueses, viviam temporariamente no Brasil por motivo de trabalho e você nasceu lá, pode usar Portugal como país de elegibilidade. A comprovação exige documentação que mostre que os pais não eram residentes permanentes no Brasil à época do nascimento.

Essas exceções são reais, legais e usadas por milhares de brasileiros todos os anos. Mas exigem documentação precisa e deixam margem para erro se mal aplicadas. Vale lembrar que declarar um país de elegibilidade ao qual não se tem direito válido resulta em desclassificação e pode comprometer futuras participações.

Requisitos de educação e experiência profissional

Mesmo que você consiga um país de elegibilidade por cross-chargeability, ainda precisa cumprir os requisitos de educação ou trabalho que o programa exige de todos os solicitantes. São duas as vias, e basta atender uma delas.

A primeira via é ter concluído o ensino médio ou equivalente reconhecido. No caso brasileiro, o diploma de Ensino Médio é aceito, desde que a equivalência seja comprovada no momento da entrevista consular caso seja selecionado. A segunda via é ter pelo menos dois anos de experiência profissional, nos últimos cinco anos, em uma ocupação que exija no mínimo dois anos de formação ou treinamento. O Departamento de Estado usa a base de dados ONET para classificar as ocupações, e não qualquer trabalho conta — a categoria do emprego deve estar nas zonas 4 ou 5 da classificação ONET Job Zone.

Para quem pretende usar a via da experiência profissional, vale confirmar a categoria da sua ocupação antes de se inscrever. Profissões como técnico de enfermagem, mecânico especializado, eletricista, cozinheiro profissional e varias áreas de tecnologia costumam se enquadrar. Já trabalhos como auxiliar de limpeza, garçom sem especialização, motorista de aplicativo e similares geralmente não atingem o requisito de dois anos de formação.

Os números do DV-2026: chances reais de seleção

Para dimensionar as chances de ser selecionado no Diversity Visa, é preciso observar os dados divulgados pelo Departamento de Estado. O DV-2026 recebeu 20.822.624 inscrições qualificadas em todo o mundo. Desse total, aproximadamente 129.516 candidatos foram selecionados — número que inclui o solicitante principal e seus familiares dependentes.

Esses 129.516 selecionados não correspondem a 129.516 vistos. O programa seleciona mais pessoas do que o número de visas disponíveis porque uma parcela significativa dos selecionados não chega a concluir o processo — seja por não atender aos requisitos na entrevista, por desistência, por problemas documentais ou por não conseguir agendar a entrevista dentro do prazo. Com cerca de 51.850 vistos efetivos, a relação entre selecionados e vistos é de aproximadamente 2,5 selecionados para cada visto.

A probabilidade global de um candidato qualificado receber o visto foi estimada em cerca de 0,25%, ou menos de 1%. Esse número é uma média mundial e varia conforme a região. África e Europa concentram a maior parte dos selecionados, enquanto a América do Sul — já sem Brasil, Colômbia, Venezuela e Equador elegível — tem uma fatia pequena do total.

Para contextualizar essas cifras, observe a distribuição dos números-chave do último ciclo.

Indicador DV-2026
Inscrições qualificadas 20.822.624
Candidatos selecionados (com familiares) ~129.516
Vistos disponíveis (após deduções) ~51.850
Proporção candidatos/vistos ~2,5:1
Probabilidade global de visto ~0,25%
Período de inscrição 2 de outubro a 7 de novembro de 2024
Resultados disponíveis 3 de maio de 2025
Prazo final para emissão 30 de setembro de 2026
Brasil elegível? Não

Esses números mostram que o Diversity Visa não é, em termos estatísticos, uma aposta vencedora. A concorrência é global, as vagas são limitadas e o processo pós-seleção ainda filtra boa parte dos classificados. Para brasileiros que participam por cross-chargeability, as chances são as mesmas de qualquer outro candidato da mesma região — não há privilégio nem penalização por usar um país de elegibilidade alternativo.

Como funciona o processo de inscrição

A inscrição no Diversity Visa é inteiramente eletrônica e gratuita. O formulário é preenchido no site oficial dvprogram.state.gov durante o período de inscrição, que historicamente ocorre entre o início de outubro e o início de novembro. Não há intermediários legítimos: qualquer site que cobre pela inscrição é fraudulento, e o governo americano não envia notificações por e-mail, telefone ou correio.

Preencher o formulário exige atenção a detalhes que podem parecer triviais mas são motivo frequente de desclassificação. Confira os pontos mais sensíveis que geram erros e eliminações:

  • Foto inadequada: a foto deve seguir padrões estritos de tamanho, fundo, iluminação e expressão. Fotos antigas, com óculos, com fundo colorido ou com outras pessoas resultam em desclassificação automática.
  • Dados inconsistentes com passaporte: nome, data de nascimento e cidade de nascimento devem corresponder exatamente ao que consta no passaporte. Divergências mínimas geram suspicion na entrevista.
  • Dupla inscrição: enviar mais de uma inscrição para a mesma pessoa no mesmo ano causa a eliminação de todas as entradas. Não existe exceção.
  • País de elegibilidade incorreto: declarar um país ao qual não se tem direito válido por cross-chargeability invalida a inscrição e pode bloquear participações futuras.
  • Falta de informação sobre cônjuge e filhos: omitir dados de cônjuge ou filhos elegíveis resulta em desclassificação. Incluir filhos que não se qualificam como dependentes também é um erro.
  • Não guardar o número de confirmação: sem o código de confirmação, é impossível verificar se foi selecionado. O governo não reenvia esse código.

Cada um desses pontos pode parecer pequeno isoladamente, mas somados representam uma parcela significativa das desclassificações. O sistema é automatizado e não admite recurso: uma vez eliminado, não há como contestar ou reapresentar a inscrição no mesmo ciclo.

O que acontece se você for selecionado

Ser selecionado no Diversity Visa não significa receber o Green Card automaticamente. A seleção é apenas o primeiro passo de um processo que pode levar meses e envolve custos, entrevistas e verificação de antecedentes. Os selecionados devem preencher o formulário DS-260 (Immigrant Visa Electronic Application), agendar uma entrevista consular no país de residência ou no país de elegibilidade, realizar exames médicos com médicos credenciados pelo consulado e pagar as taxas governamentais.

As taxas do processo não devem ser confundidas com a inscrição na loteria. A inscrição é gratuita (a partir do DV-2027 passará a custar 1 dólar, primeira cobrança na história do programa). Já o processamento do visto, se selecionado, envolve uma taxa de processamento de imigração de aproximadamente 330 dólares por pessoa, mais custos médicos e traduções que variam conforme o país.

A entrevista consular é o momento decisivo. O oficial consular verifica se o candidato atende aos requisitos de educação ou experiência profissional, se possui documentos de apoio consistentes e se não possui antecedentes que o tornem inadmissível aos EUA. Casos de antecedentes criminais, problemas de saúde graves ou suspeita de fraude podem resultar em negação do visto mesmo após a seleção na loteria.

Um detalhe crucial: todos os vistos do ciclo devem ser emitidos até 30 de setembro do ano fiscal correspondente. Para o DV-2026, o prazo final é 30 de setembro de 2026. Quem não consegue concluir o processo até essa data perde o direito — não há prorrogação, não há exceção, não há segunda chance. Por isso, selecionados com números de ordem altos (case numbers altos) frequentemente enfrentam a ansiedade de aguardar a vez e correm o risco de o tempo se esgotar antes da entrevista.

Perspectivas para o DV-2027 e o futuro do programa

O DV-2027 ainda não abriu inscrições. O Departamento de Estado informou que as datas “serão amplamente divulgadas nos próximos meses”, mas não se comprometeu com uma janela específica. A expectativa, com base no padrão histórico, é que as inscrições abram em outubro ou novembro de 2026, mas a incerteza é maior que o normal por causa da turbulência recente do programa.

Duas mudanças importantes já foram anunciadas para o DV-2027 em diante. A primeira é a cobrança de uma taxa de inscrição de 1 dólar, não reembolsável, pagável por cartão de crédito ou débito internacional. É a primeira vez em mais de 30 anos de programa que uma taxa é cobrada na inscrição, e embora o valor seja simbólico, sinaliza uma mudança de filosofia administrativa. A segunda mudança é a exigência de passaporte válido no momento da inscrição — até então, o passaporte só era exigido após a seleção.

Sobre a elegibilidade do Brasil no DV-2027, não há confirmação oficial ainda. A lista de países inelegíveis é recalculada anualmente com base nos dados dos cinco anos anteriores, e só é divulgada junto com as instruções oficiais de cada ciclo. Considerando que o volume de imigração brasileira para os EUA permanece elevado, a expectativa razoável é que o Brasil continue inelegível. Para brasileiros com cônjuge ou pais nascidos em países elegíveis, o caminho da cross-chargeability continua sendo a única via de participação.

Vale a pena tentar mesmo com chances tão baixas

A resposta honesta depende do perfil de cada pessoa. Se você é brasileiro nascido no Brasil, sem cônjuge elegível e sem pais nascidos em país elegível, simplesmente não há como participar — a tentativa seria tecnicamente impossível. Se, porém, você tem um caminho válido de cross-chargeability, a participação é gratuita (ou custará 1 dólar a partir do próximo ciclo), o preenchimento leva menos de 30 minutos e as chances, embora minúsculas, são reais.

O que não faz sentido é tratar o Diversity Visa como uma estratégia principal de imigração. Com 0,25% de probabilidade global, o programa é, na melhor das hipóteses, uma loteria — literalmente. Para quem sonha em morar nos Estados Unidos, investir tempo em vias mais estruturadas (vistos de trabalho, estudante, investidor ou familiar) oferece controle, previsibilidade e prazos muito mais tangíveis. A loteria pode ser um complemento, nunca o plano central. E quando chegar outubro e o site abrir novamente, se você tiver um país de elegibilidade válido, preencha o formulário com calma, guarde o número de confirmação e deixe o resto com a estatística — sabendo que ela não joga a seu favor, mas também não proíbe de tentar.