Portugal

O copo meio cheio ou meio vazio?

Edijane Costa – Portugal

As impressões de uma brasileira em Portugal

Quando decidi embarcar para Portugal sabia que a frase “o copo meio vazio” aplicava-se muito bem à maneira como os portugueses percepcionam os acontecimentos da vida. Expressões como “vai se andando”, “ri-te, ri-te que amanhã choras”, “isto está a me estragar a vida”, “que remédio” é comum ouvir este tipo de jargões em Portugal e são utilizados em situações rotineiras.

Inicialmente, e apesar de ser psicóloga, não compreendia muito bem o porquê deste pessimismo. Mas, após um período de convivência comecei a compreender que os portugueses (não todos!) tinham uma forma peculiar de expressar suas emoções e desagrados.

Sim. Na minha perspectiva alguns continuam rezingões e a encarar os infortúnios (e até os fortúnios) da vida pelo lado negativo, mas isto não os impede de irem a luta, de serem minuciosos e dedicados aos seus afazeres. São conhecidos na Europa e no mundo afora como indivíduos trabalhadores e empreendedores.

Terreiro do Paço em Lisboa

Podemos analisar este espírito pessimista de alguns portugueses como uma forma de auto proteção ao adotar padrões que os possibilite prever possíveis situações de adversidade e assim, preparam-se para elas. Isto desfavorece o bem-estar psicológico, concorrendo para o desenvolvimento de psicopatologias, tais como a clássica Depressão que atinge um número elevado da população.

A crise econômica e social que atravessamos neste momento na Europa e, sobretudo em Portugal, vieram fazer com que algumas das dificuldades percebidas e a auto-flagelação dos portugueses de simbólicas se tornassem concretas. Porém, hoje noto que este estado de espírito faz parte da herança histórica e cultural deste povo, da sua identidade. Tanto mais que aqueles que são otimistas e bem-humorados se destacam em qualquer ambiente e destes dizem logo “até parece que veio do Brasil!”

Ponte da Arrábida no Porto

Não é por menos que o jeito otimista e alegre do brasileiro contrasta com o pessimismo de alguns portugueses. Talvez por isto tenhamos tanta dificuldade de inicialmente aceitar e compreender que do lado de cá do Oceano Atlântico “o copo é meio vazio”. Em contrapartida, me questiono se o otimismo brasileiro (em alguns casos até excessivo) que nos motiva agir sempre com boa disposição e sorriso no rosto e até nos auxiliar a superar imensas adversidades, talvez não seja apenas o resultado do tropicalismo do nosso país, mas também de uma certa dificuldade de enfrentarmos as vicissitudes da vida de forma mais realista e sensata (apesar de reconhecer que em alguns casos, seja muito protetor).

O ideal mesmo seria encontrarmos um equilíbrio entre estas duas formas de perspectivar a vida, ou como costumamos dizer não sermos “nem oito, nem oitenta”. Pois afinal de contas, sempre poderá haver um dia em que o copo estará “meio cheio” e outro “meio vazio”.