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Vendo o Brasil de longe – mas nem tanto!

04/06/2010

 

Nadja G.
Buenos Aires, Argentina

Escrevo este post diretamente da terrinha, onde estou por um mês a trabalho. Tinha vindo aqui pela última vez em março. Antes disso, em outubro. Pois é, não fico muito tempo longe do Brasil! Ou venho porque sim ou pra trabalhar. São pouco mais de duas horinhas de voo de Buenos Aires a São Paulo só. E dá-lhe milhas da Gol!

Concordo com a Lucy nisso de que, quando saímos do nosso país, o vemos com outros olhos. Ficamos meio estrangeiros, vemos que há outros modos de vida que não o nosso ao que estamos tão acostumados. Isso acontece muito comigo em relação a São Paulo. Reparo em coisas que nunca tinha reparado, questiono coisas que antes eram normais. O trânsito, a pizza de frango com catupiry, os prédios e prédios e prédios, os lugares que até que são bonitos, os lugares horrorosos, a mistureba de raças, as ruas esburacadas, as compras, os motoboys… coisas boas e ruins!

O post da Lucy ficou muito interessante, mas o que eu adorei mesmo foi a discussão que ele gerou. Me idenifiquei com muita coisa mas admito que também me reconheci em algumas atitudes criticadas. Por exemplo, isso de só andar com brasileiro… gente, eu juro que tentei ter só amigos argentinos. Quando cheguei foi com essa cabeça, “amigo brasileiro eu tenho no Brasil!” . Evitei ao máximo me juntar aos encontros de brasileiros organizados via Orkut, que na época estava bombando. Mas quando me vi sozinha passando noites lindas de sábado em casa por falta de companhia, me rendi.

Eu fui pra lá com a família. Não tive que dividir casa com ninguém, nem estudava numa universidade (só estudei idiomas e uns outros cursinhos). Não tinha muito onde fazer amizade! Além disso, sabem qual é o problema dos argies? Eles têm os amigos de verdade, os de “toda la vida” como eles dizem. Eram do colégio, do bairro. O resto, com raras exceções, é colega. Eles conversam, tratam bem, te enchem de perguntas, podem até te convidar pra uma balada ou outra, mas em geral não passa disso.

E tem outra: as porteñas são muito chatinhas. Ok, estou sendo politicamente incorreta. Ok, estou generalizando embora não goste de generalizar. Mas gente, eu não tenho muito saco pra elas, não. Eu gosto de dar risada, falar merda, e elas só falam de problemas e dramas e fofoquinhas! Em 7 anos lá, conto nos dedos de uma mão as minhas amigas argentinas e ainda sobra dedo. E de homem também não dá pra ficar amiga porque eles querem algo mais! Se bem que tenho um ou outro bróder argie.  Tá bom, vai, vou parar com as generalizações. Por tudo isso, a maioria dos meus amigos de lá são brasileiros, ou misturados, ou fãs do Brasil. É com eles que me identifico…

Outra coisa que me chamou a atenção foi isso de os brasileiros criarem um “pequeno Brasil” e não se misturarem com o país onde estão. Também não acho isso legal, mas a gente tem que pensar que cada um sai do país com uma cabeça e com um propósito, né? Alguém com boa formação que foi fazer um mestrado em Londres tem a cabeça muito diferente da de um cara mais humilde que foi pros EUA mal falando português direito pra tentar subir um pouco na vida sendo pedreiro mas ganhando em dólar. Pro segundo, que se pudesse ficaria no Brasil, deve ser muito mais difícil se adaptar, né? E ele nem deve pensar em diferenças culturais, aprender um novo idioma, essas coisas.

Acho natural que a gente se apegue a algumas “brasilidades”. A gente pode até tentar escapar, mas é brasileiro e não adianta. Nossa infância, nossas lembranças, nossa música, nosso idioma, nossa identidade. Todo mundo ás vezes precisa sentir que “pertence”, e isso é mais difícil sendo estrangeiro. Alguns precisam mais disso, outros menos, mas dificilmente alguém se desprende totalmente do país de origem.

Eu tento sempre ficar meio lá, meio cá. Sei o que está rolando na Argentina mas não posso perder de vista o que rola no Brasil, até por causa do meu trabalho. As notícias, as modas, as gírias novas, as músicas do momento, a situação econômica e política. Odeio ficar por fora!

E isso de criticar o país onde estamos e endeusar o Brasil… vocês falam que isso é ruim porque foram pra lugares melhores, né? Primeiro Mundo, aquela alegria. E eu, que fui praquele buraco país econômica e politicamente mais instável que o Brasil? Tô brincando. Na verdade, novamente fico meio lá, meio cá. Critico o país da Cristininha, mas também o do Lulinha. Elogio o do samba, mas também o do tango. Cada um com suas vantagens e desvantagens, né?

E termino o post com uma frase que ouvi esses dias e que achei genial: “morar nos EUA é bom, mas é uma merda. Morar no Brasil é uma merda, mas é bom”. Acho que isso se aplica a morar fora do Brasil em geral, não acham?

______________

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9 Comentários leave one →
  1. 04/06/2010 7:09

    Nadjia, concordo com você! Eu morei 7 anos na AR e acho que só fiz amigos pra valer mesmo a partir do 4o ano! Eu fiz faculdade lá, só q era a minha segunda então eu era bem mais velha que o resto. E eles não se misturam com idades diferentes!!! Mas foi da faculdade que saiu uma das amigas mais maravilhosas da minha vida. Hoje eu digo que meus amigos Argentinos estão no mesmo patamar q alguns amigos que tenho no BR de toda la vida. Mas nos primeiros anos, eu sofri, viu! E aquele maldito dia del amigo? Taquipariu!!! As mulheres argentinas… meu, sem comentários!
    A única coisa com a qual não concordo, mas trata-se de um “approach” pessoal: eu não consigo ficar meio lá meio cá. Eu esqueço do Brasil. Qdo morei aí, perdi até meu português, falava com sotaque que todo mundo tirava sarro no BR. Eu ia pro BR e queria voltar correndo pra AR porque precisava andar na rua (no BR só se anda pra “fazer caminhada”). Estou há um ano na Espanha e posso dizer que já tenho “amigos” e luto a cada dia para não perder meu português. Mas é isso aí, Nadjia. Cada um vai ter uma perspectiva diferente sobre o que é a vida no exterior porque cada um é de um jeito. A objetividade, já sabemos, é impossível, e na riqueza das experiências sempre coincidimos com algumas coisas e não com outras. Isso é bonito. Besito.

  2. glendadimuro permalink
    04/06/2010 7:57

    Oi Nadja! Lembrei daquela frase tb: Vc pode sair da favela, mas a favela nunca sai de vc! Hahaha…acho graça daqueles brasileiros que qdo ganham a nacionalidade acham que vai mudar grande coisa nas suas vidas… Estrangeiro é sempre estrangeiro, só se vivir desde pequeno num outro lugar e não carregar nenhuma lembrança na personalidade do seu país de origem.
    Acredito que o teu lá e cá seja normal por causa da proximidade. Sou mais como a Lucy, vivo mais o cá do que o lá.
    E amigos, acho que isso é bastante normal em qualquer lugar. Em quatro anos, eu tenho UMA grande amiga espanhola… o resto, são colegas, que eu nunca fui convidada para ir na casa deles. Me relaciono com demais nacionalidades: italianos, mexicanos, colombianos… e é c´laro, alguns brasileiros. Isso também acontece porque meu marido é brasileiro… o que faz os amigos serem os mesmos e também não ter familia aqui. Qdo o parceiro é “nativo”, acho que o panorama muda completamente…
    Um beijão!

  3. Arlete Dotta permalink
    05/06/2010 5:36

    Olá Nadja,
    Muito legal o seu post. Aliás este blog tem sido um alívio às minhas emoções, pensamentos e reflexões. Estou morando em Zurique, na Suíça e as coisas que leio aqui me fazer ver que não sou só eu que pasto na adaptação. Sempre quis fazer a experiência de viver em outro país, mas quando a gente dá a cara pra bater é outra coisa…

    A frase que vc escreveu, pelo que eu me lembro, vem do Tom Jobim que disse exatamente assim: “Morar em Nova Iorque é bom, mas é uma merda. Morar no Rio é uma merda, mas é muito bom”
    Um beijo!

  4. 06/06/2010 17:54

    Pois é, gente! Não é fácil se adaptar. Mas é difícil pra todo mundo, acho que pra um estrangeiro que vem morar no Brasil a coisa não deve ser fácil, não!
    Arlete, você mora em Zürich? Que delícia! Eu amo aí, minha mãe mora aí também. Obrigada por esclarecer quem disse a frase! haha

    Beijos

    • Arlete - Zurique permalink
      14/06/2010 6:12

      De nada. Pois é, eu moro aqui. A cidade é linda mesmo, estou curtindo bastante 🙂

  5. 07/06/2010 15:28

    Gente, eu conheço vários holandeses, todo amigos do meu marido, com os quais tenho vida social Disse “conheço” e paro por ai. Fiz meus próprios amigos de fé, geralmente estrangeiros. Conheço duas brasileiras que eu ligo, batemos um papo descontraído, trocamos informações, e só. Amiga mesmo só as do Brasil.
    Europeu tem amigos de infância, da escola e ponto final.

    • 12/06/2010 10:58

      Anita, eu não generalizaria “europeu” não. Pelo menos, aqui na Espanha eu acho o povo bastante amigável, muito mais que na Argentina, como eu disse. Não sei se será um negócio de Murcia, Glenda, mas aqui se organizam vários eventos nas casas de colegas e eu acho isso bem legal. O povo aqui é muito integrador!
      Imagino que o norte da Europa deve ser diferente, sim!

  6. 18/01/2011 20:36

    Engraçado, quando saí de São Paulo e a primeira vez fui ao Rio de Janeiro, era como se lá fosse um outro país…
    Estranho isso, né?

  7. Alice Campos permalink
    14/04/2011 23:26

    Estou lendo o Blog que achei ainda hoje…e me identifiquei com o post acima, do Antonio….ainda não sai do Brasil (as 3 fronteiras, BR-AR-PR, numa excursão não conta né!) mas meu sonho é ir desvendar o velho mundo…rs…mas me senti em outro país quando fui morar (por quase 5 meses) em Santos, eu nasci e cresci em São Paulo e me senti muito mal com a postura dos santistas, eles não gostam de turistas e a explicação que obtive, de um santista, é que tá na história, turista ia la, a 20-30 anos (a época dos antigos “farofeiros”) acabava com a cidade e ia embora, então eles tem trauma de turista…..ai fico pensando se é o mesmo que alguns europeus sentem quando veem suas cidades tomadas por turistas (tiro por base, Paris, que leio sempre muitas reclamações…quando eu for para a cidade Luz, já vou preparada…e talvez assim ela se mostre mais bela!)

    Mas é isso…vou continuar minha leitura
    bjuss

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