Nadja G.
Buenos Aires, Argentina

Escrevo este post diretamente da terrinha, onde estou por um mês a trabalho. Tinha vindo aqui pela última vez em março. Antes disso, em outubro. Pois é, não fico muito tempo longe do Brasil! Ou venho porque sim ou pra trabalhar. São pouco mais de duas horinhas de voo de Buenos Aires a São Paulo só. E dá-lhe milhas da Gol!

Concordo com a Lucy nisso de que, quando saímos do nosso país, o vemos com outros olhos. Ficamos meio estrangeiros, vemos que há outros modos de vida que não o nosso ao que estamos tão acostumados. Isso acontece muito comigo em relação a São Paulo. Reparo em coisas que nunca tinha reparado, questiono coisas que antes eram normais. O trânsito, a pizza de frango com catupiry, os prédios e prédios e prédios, os lugares que até que são bonitos, os lugares horrorosos, a mistureba de raças, as ruas esburacadas, as compras, os motoboys… coisas boas e ruins!

O post da Lucy ficou muito interessante, mas o que eu adorei mesmo foi a discussão que ele gerou. Me idenifiquei com muita coisa mas admito que também me reconheci em algumas atitudes criticadas. Por exemplo, isso de só andar com brasileiro… gente, eu juro que tentei ter só amigos argentinos. Quando cheguei foi com essa cabeça, “amigo brasileiro eu tenho no Brasil!” . Evitei ao máximo me juntar aos encontros de brasileiros organizados via Orkut, que na época estava bombando. Mas quando me vi sozinha passando noites lindas de sábado em casa por falta de companhia, me rendi.

Eu fui pra lá com a família. Não tive que dividir casa com ninguém, nem estudava numa universidade (só estudei idiomas e uns outros cursinhos). Não tinha muito onde fazer amizade! Além disso, sabem qual é o problema dos argies? Eles têm os amigos de verdade, os de “toda la vida” como eles dizem. Eram do colégio, do bairro. O resto, com raras exceções, é colega. Eles conversam, tratam bem, te enchem de perguntas, podem até te convidar pra uma balada ou outra, mas em geral não passa disso.

E tem outra: as porteñas são muito chatinhas. Ok, estou sendo politicamente incorreta. Ok, estou generalizando embora não goste de generalizar. Mas gente, eu não tenho muito saco pra elas, não. Eu gosto de dar risada, falar merda, e elas só falam de problemas e dramas e fofoquinhas! Em 7 anos lá, conto nos dedos de uma mão as minhas amigas argentinas e ainda sobra dedo. E de homem também não dá pra ficar amiga porque eles querem algo mais! Se bem que tenho um ou outro bróder argie.  Tá bom, vai, vou parar com as generalizações. Por tudo isso, a maioria dos meus amigos de lá são brasileiros, ou misturados, ou fãs do Brasil. É com eles que me identifico…

Outra coisa que me chamou a atenção foi isso de os brasileiros criarem um “pequeno Brasil” e não se misturarem com o país onde estão. Também não acho isso legal, mas a gente tem que pensar que cada um sai do país com uma cabeça e com um propósito, né? Alguém com boa formação que foi fazer um mestrado em Londres tem a cabeça muito diferente da de um cara mais humilde que foi pros EUA mal falando português direito pra tentar subir um pouco na vida sendo pedreiro mas ganhando em dólar. Pro segundo, que se pudesse ficaria no Brasil, deve ser muito mais difícil se adaptar, né? E ele nem deve pensar em diferenças culturais, aprender um novo idioma, essas coisas.

Acho natural que a gente se apegue a algumas “brasilidades”. A gente pode até tentar escapar, mas é brasileiro e não adianta. Nossa infância, nossas lembranças, nossa música, nosso idioma, nossa identidade. Todo mundo ás vezes precisa sentir que “pertence”, e isso é mais difícil sendo estrangeiro. Alguns precisam mais disso, outros menos, mas dificilmente alguém se desprende totalmente do país de origem.

Eu tento sempre ficar meio lá, meio cá. Sei o que está rolando na Argentina mas não posso perder de vista o que rola no Brasil, até por causa do meu trabalho. As notícias, as modas, as gírias novas, as músicas do momento, a situação econômica e política. Odeio ficar por fora!

E isso de criticar o país onde estamos e endeusar o Brasil… vocês falam que isso é ruim porque foram pra lugares melhores, né? Primeiro Mundo, aquela alegria. E eu, que fui praquele buraco país econômica e politicamente mais instável que o Brasil? Tô brincando. Na verdade, novamente fico meio lá, meio cá. Critico o país da Cristininha, mas também o do Lulinha. Elogio o do samba, mas também o do tango. Cada um com suas vantagens e desvantagens, né?

E termino o post com uma frase que ouvi esses dias e que achei genial: “morar nos EUA é bom, mas é uma merda. Morar no Brasil é uma merda, mas é bom”. Acho que isso se aplica a morar fora do Brasil em geral, não acham?

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