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Uma crise intrigante e duvidosa

23/02/2015

bz_holanda Ana Fonseca – Holanda

Leitores e  gente do meu círculo pessoal de amizades no Brasil às vezes me perguntam sobre crise econômica na Holanda. Vou tentar falar muito rápido e superficialmente a respeito nas próximas linhas.

Pra começar, penso que é claro para todos que a economia holandesa é bem administrada e dinâmica. Junto com a Alemanha a Holanda continua sendo um dos países mais fortes da zona do euro – e até mais forte que a Alemanha. Porém como membros fortes da zona do euro os holandeses se ressentem muito de terem que “pagar” por ajuda a países muito corruptos e extremamente mal administrados. Por aqui as pessoas trabalham até os 65 anos (muito em breve será até 67 anos), a produtividade é uma das mais altas do mundo os impostos são vorazes.  Por isso acham absurdo ter que financiar estradas em Portugal onde há pouco tráfego ou ajudar a Grécia a sair da crise, por exemplo.

Apesar de ser uma economia bem administrada como afirmei acima, desde 2008 ficou muito difícil arrumar emprego “part time” ou obter promoções/bônus/benefícios  se você já está empregado. O auxílio desemprego sofreu muitos cortes. O mercado de trabalho continua dinâmico (há ocupações variadas) mas é bem pouco flexível. Por exemplo: para quase tudo você precisa ser certificado, até para ocupações bem banais. E alguns cursos para se obter certificado só são oferecidos para jovens durante o ensino secundário (ex.: decorador de interiores, florista, etc.). A Holanda também protege seu mercado de trabalho ao máximo e a equivalência do diploma estrangeiro é muito difícil.  Mesmo pessoas que já chegam aqui formadas e com diploma de doutorado necessitam aprender holandês, tirar diploma de proficiência na língua e sentar em bancos universitários durante um par de anos.

O varejo é um bom espelho para ilustrar o que acontece no consumo do país. Nos últimos meses três cadeias de lojas muito importantes estão com a imagem aos solavancos: a Blokker, a Hema e a V&D. A Blokker, de perfil similar a uma Casa & Vídeo no Brasil,  semana passada anunciou que vai despedir 440 pessoas (a cadeia tem um total de 7.200 funcionários atualmente). Acho duvidosa a crise por qual a Blokker passa, afinal seus lucros com vendas online aumentaram em 40%.

Blokker hema

A Hema tem filiais no exterior (Bélgica, Alemanha, Luxemburgo e desde o ano passado Espanha) e principalmente na França – vai muitíssimo bem por sinal. Mas os rumores sobre sua falência na Holanda são constantes na imprensa. De fato, as liquidações e promoções são constantes e até absurdas no meu parecer. Do tipo “só hoje” e depois é prolongada por uma semana…. 70% de desconto, uau ! Ou 40% de desconto para albuns de fotografia (como pode???). Super bom para o consumidor, sim. Mas parece que a qualquer hora vai acontecer uma queima total para fechar as portas. O que é uma pena pois a Hema é muito inovadora, com produtos de design próprio, bom preço e duráveis.  Super queridinha dos holandeses com seus produtos descolados e indispensáveis. A fome da Hema de se expandir pela Europa é grande – já que o o mercado consumidor holandês anda cerrando os cordões da bolsa…

VD

E por fim temos a V&D (loja de departamentos). Uma marca de difícil posicionamento e que propôs o escandaloso 6% de redução de salarial aos funcionários para que não feche as portas. A Blokker, a Hema e a V&D são ícones do varejo holandês e andam mal das pernas. Por outro lado a crise testa a criatividade, flexibilidade e resiliência dos seus administradores de empresas. Buscam também avidamente mercados alternativos na China e no Brasil. Essas empresas podem sair fortalecidas dessa crise e talvez até maiores e mais poderosas – o tempo dirá.

Há crise na Holanda ? Há, fato inegável. Por outro lado todos os setores da economia se ajustam rápido e os próprios holandeses também – para ilustrar esse fato: “Milhares (!) de médicos holandeses partem por ano para trabalhar na Suécia”, foi notícia de destaque na imprensa semanas atrás. E cerca de 1% da população holandesa emigra definitivamente por  ano, principalmente para o Canadá, Escandinávia, Austrália e Nova Zelândia.

A Holanda foi um dos primeiros países a abolir o pagamento de taxas em produtos estrangeiros, ainda na idade Média, o que atraiu muitas trocas comerciais. Historicamente o aprendizado de no mínimo 3 línguas estrangeiras é incentivado desde a mais tenra idade para que toda a população possa ter chances de emprego no exterior e fazer-se entender em qualquer tipo de transação. Seus governantes calvinistas ao longo dos séculos sempre convidaram e acolheram perseguidos políticos, e comerciantes que sofriam perseguiçoes religiosas (historicamente os holandeses sempre foram chamados pejorativamente de “os judeus brancos da Europa” e atualmente século XXI são “os chineses da Europa”). Com exceção de alguns bolsões de gás no mar do norte o país praticamente não tem matéria prima nenhuma e ainda assim possui um número imenso de multinacionais – está no topo da lista dos países mais ricos do mundo. Por isso sempre digo que vivencio na Holanda uma situação de “crise –sem crises !”. Dramas contornáveis e calculados. Ou seja: a crise existe – e as oportunidades também.

——

Ana Fonseca é carioca, publicitária e vive na Holanda desde 1999 trabalhando na área de turismo e hotelaria. Para saber mais acesse a mini-bio aqui. Sigam-nos no Instagram, Facebook e Twitter para atualizações diárias! 

5 Comentários leave one →
  1. 26/02/2015 19:26

    oi Ana, muito bom teu post! na verdade, não parece ser fácil compreender que um país rico fale de crise, mas a gente sabe que isso existe, sim.

    por exemplo, a questão do aumento da idade para aposentadoria, em contraposição à redução de auxílio desemprego e/ou outros tipos de assistência do Estado, tem gerado polêmicas aqui na Bélgica também.

    os holandeses tem uma tradição como viajantes e comerciantes, não admira que teham progredido tanto neste sentido. Porque um fato é incontestável: neste lado da Europa se trabalha muito, se paga muito imposto, e se encara estudo e trabalho com muita seriedade, e o cidadão sabe onde seu dinheiro é usado.

    é diferente se pensar o conceito de ‘crise’ em países assim. Crise existe, sim, a gente sabe, mas baseada em outros parâmetros que não o desmando ou a corrupção impune. Talvez seja por isso que fica complicado entender a crise holandesa…?

  2. 26/02/2015 20:13

    Olha Touché, os bancos de comida para quem precisa estão com mais “clientes”. Leio relatos em revistas de gente com emprego mas que por passar por um divórcio ou uma dívida inesperada acaba tendo que ir bater num banco de comida. Isso pode acontecer com qualquer um que viva “from payment to mouth”, sem reservas.
    As empresas andam se aproveitando desse clima de crise no ar para quando sai um funcionário não o reporem e exigir mais dedicação dos que ficam. Ou seja: andam explorando mais, manipulando o medo que existe. Empregam mais estagiários e temporários. Ou empregam gente especializada e com experiência gerencial mas com o novo título (e salário!) de “assistente”, ou “junior”, etc..
    Acho que até 2008 a economia estava exageradamente aquecida e muita gente vivendo uma fantasia, vivendo como ricos ou tentando imitar o padrão de consumo de ricos. A crise teve um lado positivo: fez a ficha de muita gente “cair”.
    Mas acho tudo muito confuso, olho ao redor, leio reportagens, penso penso e às vezes não entendo nada mesmo.

    • 26/02/2015 20:20

      Ana, me desculpa a pergunta que talvez seja ‘burra’, mas o que é exatamente um ‘banco de comida’?

      olha…se você, que mora aí, é bem informada e tem uma visão crítica fala que às vezes não entende la coisa, imagino quem não se dá conta, como fica.Talvez que seja este o objetivo dos políticos? deixar as pessoas tipo ‘perdidas’, sem referenciais claros? evidentemente isto propicia uma situação de vulnerabilidade social, fica mais fácil manipular o povo…

      o que me diz?

      • 26/02/2015 20:45

        Touché, bancos de comida (voedselbanken) são estabelecimentos operados por voluntários. Esses estabelecimentos recebem doações alimentícias (de supermercados, padarias, etc.) de produtos que estão prestes a perecer. Não é claro para mim como famílias ou pessoas tem direito a utilizar os serviços desses bancos. Em algumas cidades as pessoas devem ir até a prefeitura e contar sobre sua (má) situação financeira e pedir permissão para retirar pacotes de comida de um banco de comida. Eles funcionam como supermercados com oferta bem limitada de produtos. Já teve um programa de televisão anos atrás com o cantor René Froger e a mulher dele (eles são milionários) onde tiveram que viver por um tempo administrando o salário modal de uma família holandesa e tb tiveram que ir a bancos de comida para ver como é.
        Mais sobre os bancos de comida aqui: http://nl.wikipedia.org/wiki/Voedselbank

        Pessoalmente acho que há um grupo de pessoas e empresas que andam ganhando muito com a “crise” e andam segurando o restabelecimento da economia holandesa. A imprensa aqui não é denunciadora ou investigativa, está muito amarrada também. E vamos combinar que apenas porque os habitantes de um país gostam de deixar as cortinas abertas não significa que vivam numa sociedade “transparente”.

      • 02/03/2015 15:43

        oei, nem agradeci! desculpa, me passei. Mas não na leitura, que me esclareceu bastante.

        parece que crises sempre são benéficas para alguns, né?…

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