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É necessário falar a língua do novo país ?

24/09/2015

bz_franca

Fabio T – Normandia, França

línguas (fonte blog.internations.org)

línguas (fonte blog.internations.org)

Quando moramos em outro país que não fale uma língua que dominamos (nossa língua ou o inglês, por exemplo) e onde esta língua não seja uma das línguas oficiais, podemos ter tentação de não nos interessarmos em aprender a língua local, especialmente se ela for muito diferente, como o árabe ou o japonês para os latinos e anglo-saxões.

Se soubermos, por exemplo, que vamos morar neste país por pouco tempo e/ou as pessoas deste país sabem falar bem inglês como segunda língua (como por exemplo nos países nórdicos europeus) podemos pensar “por que dar-me ao trabalho de aprender uma nova língua ?”

Outra tentação é de conviver somente com pessoas que só falam as línguas que dominamos. Estar cercado de conterrâneos, falar e ouvir a língua materna mata um pouco da saudade, e pode reconfortar um pouco as durezas e as dificuldades da vida de expatriado.

Eu acho que para um brasileiro é mais fácil aprender uma língua latina (espanhol, italiano ou francês) que aprender, por exemplo, o japonês, e isto pode facilitar o aprendizado.  Mas não venha me dizer que portunhol é a mesma coisa que o espanhol porque não é – como explicou de uma maneira bem humorada a escritora Melissa Lima em sua publicação  “o idioma portunhol-x-espanhol“.

Outro fator que pode desestimular alguns imigrantes à aprender a língua local é quando eles trabalham em posições que não exigem um conhecimento linguístico aprofundado, como trabalhos em linha de produção, trabalhos domésticos ou na construção civil.

Ouço e leio casos de estrangeiros que passam décadas morando em outro país, mas que ainda não conseguem se comunicar de uma maneira fluente.

Olá ! (fonte: blogs.deakin.edu.au)

Olá ! (fonte: blogs.deakin.edu.au)

Muitos imigrantes partem por razões econômicas, em busca de uma vida melhor para si e para sua família e/ou para poder enviar dinheiro para sustentar a família que ficou no país de origem. Imagino que seja difícil para os imigrantes, especialmente para àqueles que realizam trabalhos físicos e manuais, estudarem uma língua nova após um dia cansativo de trabalho ou nos dias de repouso, mas se estes imigrantes não falam bem a língua local, fica quase impossível de eles encontrarem um trabalho bem valorizado e muito bem pago, além de eles estarem sempre dependentes de intermediários e suscetíveis à serem explorados por aproveitadores.

Eu acho que se estas pessoas estão satisfeitas com suas condições, não aprender a língua local é uma escolha delas, mas elas estão perdendo uma oportunidade incrível e única de aprender uma nova cultura, mudar seus paradigmas e ter uma visão mais aberta do mundo, além de conseguir ter uma vida melhor no país de adoção.

A língua é uma parte essencial da cultura de um país, e compreender a língua é compreender a cultura local, o seu povo e o seus costumes.

Em uma publicação anterior (Tu ou vous ?), falei sobre a diferença entre tratamento formal e informal na língua francesa. Isto pode parecer sem importância, mas acredito que saber esta diferença é essencial para se compreender as relações e interações sociais na França.

Além disso, o bom conhecimento da língua é incontornável para poder se integrar à sociedade, e fazer todas as atividades quotidianas, como pedir um empréstimo no banco, fazer um pedido na prefeitura, procurar um emprego,  ou participar às reuniões na escola dos filhos.

Há países mais fechados aos estrangeiros e que não os aceitam facilmente, mas se o estrangeiro não faz o esforço de falar a língua local, a sua integração ao país fica quase impossível e ele se torna quase um “cidadão de segunda classe”.

No meu caso, “não tive muita escolha” pois “caí de paraquedas” em um pequeno vilarejo no interior do país onde poucos sabiam ou queriam falar inglês. Eu tinha começado à aprender o francês no Brasil somente 9 meses antes de partir e eu cheguei com um conhecimento muito limitado da língua.

caindo de paraquedas (fonte : intrometendo.com)

caindo de paraquedas (fonte : intrometendo.com)

Não foi nada fácil no começo, especialmente porque as pessoas falavam muito rápido para que pudesse compreendê-las, e no começo eu tive a ajuda de colegas para conseguir fazer algumas atividades rotineiras como abrir uma conta no banco. Uma das coisas que eu aprendi ao mudar de país é que não há nada de errado em “engolir o orgulho” e pedir ajuda às pessoas nativas quando a gente realmente está perdido. Quando a gente muda de país, todas as nossas referências culturais mudam e fica difícil  de adivinhar sozinho se não nos falam, o que causa algumas vezes os famosos “micos” que nós expatriados passamos às vezes (ver nossa publicação “pagando mico no exterior”).

Com o passar do tempo fui aprendendo e dominando a língua francesa; e até hoje continuo aprendendo novas palavras e expressões a partir de conversações ou leitura de jornais e livros. A internet tem-me sido muito útil para aprender novas regras gramaticais ou tirar duvidas. Na televisão é tudo falado em francês e é muito raro ter filmes estrangeiros legendados no cinema.

No final das contas, olhando para trás, esta imersão foi a melhor coisa que poderia ter me acontecido para poder aprender a nova língua.

E você, acha que é importante saber falar a língua do país ?

_______________

Fabio T mora na França há 6 anos e, após morar nas regiões de Borgonha e Champagne, resolveu estabelecer-se na região da Normandia.  

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