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Choque cultural: troque o medo do desconhecido pela curiosidade

09/10/2015

bz_colaborador André Fernandes – Brasil

Um tópico nada confortável e não muito discutido.  Só quem mora ou já morou fora do país entende o que realmente significa o choque cultural e o choque cultural reverso. Não existe nenhum padrão, algo como receita de bolo, já que experiências variam para cada indivíduo e conforme cada contexto. É uma experiência que deixa qualquer um vulnerável dos pés à cabeça e nem todos tem a coragem de encarar antes, durante e/ou depois da experiência.

Vale ler o post Choque Cultural: um mal necessário? que a Ana Fonseca escreveu sobre este mesmo tema, foi o melhor que li até agora em português, sobretudo ao mencionar a necessidade de cuidar do corpo e da mente ao lidar com choques culturais. Beber até cair e usar drogas são claros sinônimos de que uma pessoa não está sabendo lidar com os seus choques ao sentir-se só no exterior – assim como assumir comportamentos que jamais teria a coragem de assumir em seu próprio país. É algo que vejo, e muito, sempre que estou no exterior!

É normal para muitos retornar ao país de origem cheios de planos, sonhos, empolgações; e ao mesmo tempo, cheio de medos, se sentir perdido, incerto, até mesmo depressivo. Tudo vira uma loucura (things get crazy!) quando nos sentimos perdidos, sem saber quais direções tomar. É uma situação que nos demanda lidar com a nossa necessidade por certezas, que costuma ser conflitiva face a qualquer tipo de incerteza.

Comigo, não foi diferente! Eu tinha meus planos e objetivos definidos, e de repente…. Eu mudei completamente com todas as experiências fora do Brasil e tudo mudou para mim. Meus velhos planos e objetivos não faziam mais nenhum sentido. Veio aquela sensação “que diabo eu faço com a minha vida agora?” Fiquei por um tempo paralisado até redefinir meu propósito de vida e meus planos, foi como se tivesse que recomeçar a minha vida do zero.

Adaptar a uma versão nova de nós mesmos é um fator crítico quando se vive fora, algo que aprendi na prática. Você pode percorrer por todos os países mundo afora, mas você não pode ignorar as mudanças que uma vida no estrangeiro impõe, inclusive sobre o que passa a ser importante para você. Às vezes implica a necessidade de parar, refletir e lidar com todas as vulnerabilidades e incertezas. E ninguém mais pode resolver isto por você! Eu, acostumado a estar ocupado e num ritmo acelerado, custei a aceitar esta necessidade de parar e refletir.

As mesmas incertezas e os imprevistos que tornam viagens e a experiência de morar fora excitantes causam choques no retorno ao país/cidade de origem. Por quê? Bom, mudamos, nossos horizontes se expandem e aquela nossa vida passada fica limitante aos nossos sonhos, certo? É normal nossos sonhos ficarem maiores, novas oportunidades aparecerem (trabalho, namorada, gostar de algum lugar e lá querer ficar, novos interesses) e nem todos que viviam à nossa volta vão entender.

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Substitua o medo do desconhecido pela curiosidade. Via augustocuginotti.com.

O choque cultural – e sobretudo o choque cultural reverso – é uma grande oportunidade de aprender coisas novas, de seguir novos caminhos e experimentar tudo que for possível (não quero dizer usar drogas, Ok?). Ou você vai ficar apegado aos seus velhos hábitos passados? Nada de novo surge na vida se não romper com os velhos padrões, não é? Uma vez fora da zona de conforto, já não há mais nada a perder!

É um momento cara a cara com as incertezas. Usamos nossos planos como garantia, como uma fonte de certezas, mas a verdade é: nada na vida é garantido! Pense, por exemplo, num instante em como você se adaptou a uma diferente cultura, como superou os perrengues. Até que ponto teve alguma importância o seu passado/status/carro/carreira,etc? Eu imagino que o que de fato fez diferença foi a sua atitude em relação aos desafios, certo? Aquela sensação de que você dá conta do recado.

Como experiências são relativas a cada indivíduo e se apegar a padrões não é a melhor opção, eu apenas gostaria de mencionar algumas sugestões que me ajudaram a lidar com os choques culturais e com o choque na volta ao Brasil. Seguem as dicas:

  • Tire um tempo para parar e refletir: a vida no estrangeiro, especialmente após um longo tempo, nos faz mudar dos pés à cabeça: nossos valores, mentalidades, comportamentos, até nossos objetivos e o nosso propósito. O que faz sentido para você agora?
  • Seja flexível para aproveitar novas oportunidades: oportunidade vem e vão, e o conselho que dou é que aproveite todas as oportunidades com base no que faz sentido para você e conforme você dê conta.
  • Aprenda com os erros e contratempos: erros e contratempos naturalmente vão acontecer e o melhor a fazer é tirar as lições aprendidas. É duro, eu sei, mas nada dura para sempre e a maior dor é ficar paralisado pelo medo.
  • Esteja aberto a novas experiências: busque novas atividades, quebre seus preconceitos (todos nós temos) e faça o que você nunca fez antes. Dependendo do quanto você saiu da zona de conforto, novos desafios e adrenalina é o que mais vai lhe fazer bem.
  • Use o seu karma: como você poderia usar as suas experiências vividas? E os perrengues? Os choques culturais e as lições aprendidas? O que poderia ajudar outras pessoas tendo as mesmas experiências?

Se você tem mais sugestões, fique à vontade para comentar e compartilhar as suas experiências. Como qualquer experiência, o mais importante é como abordamos os choque culturais e choques culturais reversos. Daria a simples sugestão de trocar o medo do desconhecido pela curiosidade.

________________________________

André Fernandes, nascido em Santa Catarina para ser um nômade pelo mundo. Prestes a iniciar a minha jornada na Kaospilots Switzerland e a construir a carreira dos meus sonhos, que vai render muitas viagens e aventuras!

6 Comentários leave one →
  1. 09/10/2015 10:38

    Um dos lados mais chatinhos de ir morar num outro lugar é que mesmo depois de vc ter aprendido os códigos locais e ter feito adaptações e modificações na sua vida, os locais não tem a minima ideia da cultura do Brasil. Sua faculdade aqui não significa nada, sua escola, as musicas que você acha legal, seu gosto para moda-arquitetura-paisagismo. Ja riram de mim quando falei que tinha estilo rock´n´roll no Brasil. Não acreditaram quando disse que o interior da maioria das casas brasileiras tem paredes brancas, os holandeses que conheci acharam que era com o México, cada quarto de uma cor, jardins com cactos, etc..

  2. André Fernandes permalink
    09/10/2015 12:38

    Sim, a sua vida e tudo que fez no Brasil não significa nada, você tem que provar que é competente, que estudou e tudo mais.
    E imagina eu que não sou do RJ ou de SP ter que explicar que eu cresci entre culturas alemã, italiana, espanhola e portuguesa. PS: a casa da minha família tem paredes brancas hahaha

  3. 09/10/2015 15:46

    Oi, Andre! Adorei o texto! Sim…ter que provar que eh capaz e competente eh a parte que mais demanda energia, eu acho. La no Japao, demorou mais de 1 ano ate que eles me deixassem mais solta para poder dar ideias, elaborar projetos e poder exercer a funcao para a qual fui chamada!! Mas, uma vez que dah certo, ai eles costumam achar que voce eh uma especie de mulher-maravilha e consegue dar conta de tudo! Hahaha..Em relacao ao choque cultural, eu acho que uma boa maneira de evita-lo ou “amacia-lo”, seria evitar comparar o pais e a cultura local com a do Brasil. Por isso vejo tanta gente desistindo da India, porque a India eh outro planeta dentro da Terra. Nao ha nada que possa ser comparada a ela!
    Um abraco!!!

    • André Fernandes permalink
      09/10/2015 15:56

      É verdade Juliana, muita gente se esquece que ser imigrante é ter que provar a toda hora. A Índia é um mundo à parte, é verdade. Cada país tem suas particularidades e o comparar com o país de origem é como um mecanismo de defesa, até de forma inconsciente muitas vezes.
      Lembra o que acabei de ler num texto da Melissa, nem todos se adaptam, independente do país.

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