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Só doido vai à Coreia do Norte – II parte

11/11/2015

BZ Coreia do norte Ricardo Schaeppi – Coreia do Norte
***Veja a primeira parte desse relato aqui. ***  
O nosso programa de viagem previa uma visita a Pyongsong, uma cidade localizada a nordeste da capital Pyongyang. Partimos cedo com os nossos dois guias e viajamos em estradas de terra batida assim que deixamos para trás a capital da Coreia do Norte. O que mais me impressionou durante a viagem foram os postos de controle pelos quais tivemos que passar. Que não fosse possível viajar livremente pelo país, eu já o sabia antes mesmo de partir da China. Porém o que eu não sabia era que nem os norte-coreanos podem viajar de uma cidade para outra espontaneamente. Infelizmente a livre circulação de pessoas é um luxo somente permitido às elites do país. Como estávamos visitando o país, os nossos guias tinham de mostrar os nossos “passes” aos soldados cada vez que atravessávamos um posto de controle, como se estivéssemos viajando por terras ocupadas ou zonas de guerra. Soldados enfiavam a cabeça pela janela do furgão para averiguar se realmente éramos as pessoas que dizíamos ser. E por falar em soldados, as duas cidades que visitei, Pyongyang e Pyongsong, pareceram-me muito militarizadas. A cor de roupa masculina que predominava em ambas as cidades eram o verde e o azul militar, quase todos os homens na capital davam a impressão de pertencer às forças armadas. Vigilantes, centenas de homens vestidos de azul e verde escuros caminhavam em direção ao mercado ou ao trabalho silenciosamente, atravessando ruas desoladas por onde só de vez em quando passava um carro que, frequentemente, era um veículo militar.
Trip 2014 Asia 162
 Agente de polícia controlando o tráfego em Pyongyang
Em Pyongsang visitamos monumentos dedicados aos líderes do país e uma fábrica de biscoitos. Nos campos via-se de vez em quando mulheres que lavavam a roupa num riacho, alheias a tudo o que acontecia em torno delas. De noite depois do jantar, como estávamos num hotel no centro da cidade e não numa ilha um pouco inacessível como em Pyongyang, um dos guias nos pediu que não saíssemos do hotel para passear pela cidade. Não que não pudéssemos sair do hotel, o problema era que a população local não estava “acostumada” a ver estrangeiros e nunca se sabe como poderiam reagir. Ficou a dica. A dica era sutil e não deveríamos sair do hotel desacompanhados, estávamos sob vigilância o tempo todo.
Durante os cinco dias que passamos na Coreia do Norte, sempre que acordávamos e íamos ao restaurante do hotel tomar o café da manhã – mesmo que nos levantássemos antes da hora prevista – encontrávamos um dos guias já no lobby do hotel saudando-nos efusivamente e lembrando-nos de quando deveríamos nos encontrar para o passeio daquele dia. Na manhã seguinte, a caminho de Pyongyang, paramos em uma escola modelo de Pyongsang onde iríamos assistir a uma aula de inglês. Fomos recebidos pela diretora da escola, uma norte coreana pequenina, magrinha, com bastante maquiagem – e que tinha a minha idade – e que nos levou à sala onde uma turma de crianças de mais ou menos doze anos tinha aula no idioma do Shakespeare. O professor falava com um sotaque britânico bem forte como se tivesse passado metade da sua vida em Londres. Assistimos a aula no fundo da classe mas passados uns dez minutos, o professor nos chamou à frente da classe para que pudéssemos conversar com os alunos em inglês, que provavelmente já haviam preparado as perguntas que nos queriam fazer. Perguntaram-nos o que fazíamos, onde morávamos, do que gostávamos, até um dos estudantes nos perguntar se estávamos gostando da nossa viagem na Coreia do Norte. Respondi que sim, que estava gostando muito e que todas as pessoas que havíamos encontrado eram muito hospitaleiras e nos tratavam muito bem. Naquele exato momento um dos alunos deu uma risada como se não estivesse acreditando no que eu dizia. Foi um momento de saia justa, não para mim mas para o aluno já que um silêncio meio que ameaçador se abateu sobre a classe. Aquela risada fez-me pensar que ou aquele aluno pensava por si próprio ou que talvez viesse de uma família de dissidentes camuflados, que provavelmente criticassem o governo entre quatro paredes. O que me fez perceber que nem todos são robôs que repetem a ladainha do partido como acreditamos aqui no ocidente. Por detrás de personalidades reprimidas obrigadas a se conformar com a única realidade que conhecem, existem seres humanos como nós, que no final do dia tudo o que desejam é ter uma vida sem conflitos nem problemas.
Trip 2014 Asia 181
Trip 2014 Asia 185
Metrô em Pyongyang com arte socialista
Depois de retornarmos a Pyongyang visitamos mais monumentos, a casa onde Kim Il Sung teria vivido antes de iniciar a revolução que modificaria o rumo do seu país para sempre e o museu de guerra onde ouvimos a versão norte-coreana do conflito que acabou dividindo a península em dois países diferentes que, oficialmente, ainda estão em pé de guerra até hoje. Passeamos num parque – sempre acompanhados dos nossos guias – onde fomos convidados “espontaneamente” por um grupo de pessoas a dançar com elas. Enquanto caminhávamos, passamos perto de um parque de diversões onde exatamente naquele momento um carrinho de montanha russa descia à alta velocidade. O que me surpreendeu é que os passageiros não gritaram, não deram nem um pio, um show de autocontrole inimaginável! Andamos de metrô e visitamos estações belíssimas onde crianças pequenas se aproximaram de nós por sermos diferentes.
Trip 2014 Asia 309
Show de música folclórica/ socialista
Lógico que não tivemos liberdade nem a possibilidade de conversar livremente com as poucas pessoas que encontramos durante a nossa viagem – exceto com os nossos guias que foram muito amáveis – mas tivemos uma ideia do que é viver num país que parou no tempo, na época da guerra fria, um país muitas vezes considerado Orwelliano. Apesar de tudo doeu-me o coração quando me despedi dos meus guias, sabendo que no fundo eram pessoas íntegras e decentes mas que teriam de continuar a viver num país cuja realidade era surreal. Quando aterrissamos em Beijing, provei novamente o sabor da liberdade por poder pegar o metrô e voltar para o apartamento que havia alugado sem precisar de guias que me acompanhassem o tempo inteiro. Há quem pense que “passar as férias” na Coreia do Norte é um modo de chamar a atenção dos outros, fui até mesmo acusado de colaborar com o sistema indiretamente pois o dinheiro que gastei teria ido parar nos cofres do governo que perpetuam um regime cruel. O meu intuito foi ver com os próprios olhos um país que ainda é muito isolado, mesmo que o que eu vi tenha sido meio que manipulado (não dá para manipular tanto a realidade a cem porcento, há momentos em que a realidade desvela a si própria inesperadamente).
Há leitores que gostariam de ir à Coreia do Norte? Quais seriam suas motivações para irem ou não?
(Todas fotos desse post são do arquivo pessoal do próprio autor)
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Ricardo Schaeppi é carioca e atualmente mora em Roma.  Para saber mais sobre ele clique aqui.
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6 Comentários leave one →
  1. 11/11/2015 8:33

    Achei no mínimo fantástico a sua aventura, muito diferente e inesperado que alguém queira ir a Coréia do Norte, até mesmo pelo pouco que sabemos é através de notícias manipuladoras do sistema.

    Eu acho o máximo fazer coisas fora do comum e acho muito interessante culturas diferentes, me inspirou ir e ver com meus próprios olhos. Mas confesso que terei que me conter muito esse todo meu entusiasmo para não cair na bobeira de sair da linha com eles.

    Não me considero uma pessoa julgadora, acredito que cada um faça o que quer e quando quer da sua vida. Mas a natureza não nega e como mencionou, você deve ter sido julgado muitas vezes da turma da esquerda. E pra te falar a real, ninguém tem nada a ver com isso, fez bem em ir e ver com seus próprios olhos. Obteve a experiência e agora tem uma história bacana pra contar, e mais importante ainda, imparcialmente.

  2. 11/11/2015 12:33

    Ricardo, eu sei que vc antes de fazer essa viagem assim como eu já leu muito material a respeito das atrocidades na Coreia do Norte (gulags, campos de concentração, genocídio em massa, etc.). Por isso mesmo eu particularmente não teria sangue frio para ir turistar por lá. Acho seu relato precioso, porque encontro muita coisa em inglês, tanto na net como no Youtube, mas há poucos relatos em primeira mão na língua portuguesa (a Cora Ronai falou no Globo semana passada, aliás). A população da CdN vive uma realidade prefabricada, controlada, tirana. Me pergunto por quanto tempo esse regime poderá se sustentar.
    Para ilustrar o fechamento cultural do país … Numa entrevista `a Floortje Dessing da TV holandesa uma guia disse que conhecia sim um cantor famoso dos EUA. Que o nome dele começava com “E” . A Floortje sacou na hora: “Elvis Presley?!” Pra você ver a alienação imposta a eles ! Vivem na década de 50/60 do século passado.

    • 12/11/2015 0:00

      Oi Ana, a realidade deles é toda préfabricada, não dá nem para termos a menor ideia do que é viver sob uma ditadura tão mesquinha em que todo o sistema é projetado, programado para manter os privilégios de uma pessoa que concentra todo o poder em suas mãos. Tive a impressão de ter viajado na máquina do tempo e ter voltado aos anos 40! Que o ser humano é egoísta já sabia, mas que fizesse todo um povo sofrer para continuar com as mordomias de sempre, é inaceitável. Tem que ter sangue frio realmente até mesmo para não começar a questionar tudo o que se vê e não entrar numa fria…

      • 12/11/2015 8:33

        Se por um acaso, por um revertério qualquer da vida eu fosse visitar a CdN… Ia dar xabú pro meu lado, amigo… ia dar xabú.

  3. 12/11/2015 9:40

    Exatamente como você, sou muito curiosa e gostaria de ver tudo isso com meus próprios olhos. Tenho muita vontade de visitar, com certeza o farei se tiver a oportunidade. Obrigada pelo relato!

    • 01/12/2015 23:03

      A curiosidade (a boa e sana) é essencial para a humanidade, é o que nos faz ir para frente. Obrigado pela tua participação!

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