bz_alemanhaCristiane Schlup – Alemanha 

Acho que posso começar este texto –  que em essência é uma declaração de amor a este país que habito – com alguns clichês. A começar pelo título, afinal, nada mais verdadeiro do que a frase “Nenhum país é perfeito” ou “todo lugar tem suas vantagens e desvantagens” etc. Verdade e também um tanto quanto subjetivo, pois aquilo que acho bom em um lugar, pode ser o que outra pessoa detesta, e por aí vai. Assim sendo, sei que aquilo que vou falar é meramente minha opinião.

Então, sem mais delongas, digo: Alemanha, eu te amo!

Há poucos dias fez 3 anos que vivemos juntas, que você me acolheu de braços mais do que abertos! E se engana completamente quem faz na cabeça aquela imagem de que alemão é „fechado“. Não é. Claro que, como em qualquer lugar, tem pessoas menos receptivas. Sua língua não é fácil, mas o povo alemão é prestativo, se esforça para entender e para explicar. Ainda bem, pois como você é burocrática, Alemanha. Entre tantas repartições e documentos com palavrões impronunciáveis que tive que providenciar ao me instalar aqui, nada teria sido possível sem a mãozinha de alemães dispostos a se esforçar para ajudar uma brasileira perdida.

Chocolate quente para aquecer a alma no frio de Dresden!

Mas entre tantas coisas que justificam meu amor por você, Alemanha, comecemos pelas coisas que nos trazem aquelas pequenas alegrias do dia a dia.

Eu amo como as estações do ano são aqui tão bem definidas e cada uma tão intensa, mais ainda aqui no Norte. Mas o inverno não precisava ser tão frio, tão escuro e tão longo. Adoro uma bela paisagem coberta de neve, mas -15C não são divertidos. Os dias são curtos e as noites são de escuridão eterna. Eu saio para trabalhar e está escuro, eu saio do trabalho é noite, embora seja 16:00. Comecei a entender o termo „Winterdepression“ – depressão de inverno.

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O lado cruel do inverno: saindo do trabalho em um dia de janeiro, às 08:00 da manhã. Foto do meu arquivo pessoal

Bela paisagem de inverno: Castelo de Güstrow, Norte da Alemanha sob a neve de janeiro

Bela paisagem de inverno: Castelo de Güstrow, Norte da Alemanha sob a neve de janeiro, foto de acervo pessoal.

Mas aí vem a primavera, as tão esperadas primeiras flores do ano, o sol. Ainda é gelado, mas um dia fresco de céu azul é revigorante! A gente aprende a dar um valor inigualável a um simples dia com sol como se fosse um dos melhores acontecimentos do ano, ficamos felizes como crianças!

Primavera nos jardins de Sanssouci, Potsdam

Primavera nos jardins de Sanssouci, Potsdam

E se o inverno é uma escuridão sem fim, isso tudo é esquecido e mais do que compensado pelos intermináveis dias de verão. Sensacional ver o pôr-do-sol às 22:00, com raios de claridade no horizonte após às 23:00. Somos invadidos por uma energia incrível, uma sensação de que é preciso viver intensamente, tudo isso por conta do sol que insiste em brilhar até já ser quase outro dia.

Noite de verão na cidade costeira de Rostock, norte da Alemanha. Por volta de 21:00, foto de arquivo próprio

Noite de verão na cidade costeira de Rostock, norte da Alemanha. Por volta de 21:00, foto de arquivo próprio

E após um intenso e claro verão, o espetáculo das estações nos presenteia com as cores do outono. Do amarelo ao vermelho, todas as nuances emolduram as paisagens. Surrealmente belo.

Paisagem de conto de fadas na floresta à beira da estrada nas proximidades de Krakow am See, norte da Alemanha, foto de arquivo próprio

Paisagem de conto de fadas na floresta à beira da estrada nas proximidades de Krakow am See, norte da Alemanha, foto de arquivo próprio

Parece que a vida anda em outro ritmo e são as estações que ditam o compasso. E não há nada melhor do que se deixar guiar, viver e aproveitar o que há de mais belo de cada estação. Por isso, Alemanha, te amo muito!

Outra pequena grande alegria do meu dia a dia: aqui não tem barata! Para alguém que antes tinha medo de ficar em casa sozinha e ter de se confrontar com esses seres aterrorizantes, capazes de causar ataques cardíacos a cada revoada, aqui posso ficar sozinha e abrir armários e lixeiros sem medo! Infelizmente o mesmo não se pode dizer para quem tem medo de aranhas, por sorte, esse não é meu caso!

Alemanha, o paraíso para quem tem medo de barata! Imagem via www.mensagens10.com.br

Alemanha, o paraíso para quem tem medo de barata! 

Mas sabe, você também tem lá seus defeitos, ao menos para mim. Detesto, e talvez seja o que há de mais difícil aqui para eu me acostumar, o fato de que quase nada, mas quase nada mesmo funciona aos domingos. Eu venho de um país onde é normal ir ao supermercado no domingo, fazer uma compra para algo a ser preparado no almoço, bater perna no shopping no domingo à tarde. E se bater aquela dor de cabeça, dar uma passada na farmácia e comprar um comprimido. Isso não é possível aqui! Deu dor de cabeça? Ihh, tem que procurar qual farmácia tem plantão hoje! E pode ser que o remédio custe um trocado a mais por ser em horário de plantão. Faltou um ingrediente para fazer aquele bolo que você planejava para o domingo? Quer comprar uma salada fresca para acompanhar seu assado dominical? Programe-se e vá no sábado comprar, e fique de olho se sábado não é um feriado que você não sabia (já aconteceu comigo)! Eu às vezes trabalho no sábado, plantão de 24 hs, aí já sei que tenho que saber na sexta exatamente tudo o que vou precisar no domingo. Tenho que me programar com antecedência para o que vou comer, eventualmente um remédio que possa precisar, enfim, me preparar para aquilo que apelidei carinhosamente como “apocalipse dominical“!

Mas quando o supermercado abre suas portas novamente, vem junto mais uma lembrança de porque te amo tanto, Alemanha! Eu sou foodie assumida, então esse é um ponto crucial para mim. A variedade de chocolates, a infinidade de queijos, embutidos, sabores de iogurtes, geléias… Gosta de Nutella? Ela é só uma das várias opções de creme de chocolate com avelãs. Qualquer guloso de plantão vai à loucura em um supermercado alemão. E as padarias aqui são uma coisa de outro mundo! Os mais diversos pães, de todas as formas, de brancos à escuros, puros ou com os mais variados grãos, crocantes e macios… O paraíso dos caboidratos! Alemanha, como é difícil manter o peso aqui com você!

Pães alemães, um caso de amor! Imagem via sueddeutsch.de

Pães alemães, um caso de amor! Imagem via sueddeutsch.de

Seção de chocolates para a Páscoa em um supermercado local

Seção de chocolates para a Páscoa em um supermercado local, foto de arquivo pessoal

Amo e odeio que aqui não exista nada parecido com o „jeitinho brasileiro“! Explico: aqui tudo é planejado, organizado, até as férias são decididas com um ano ou mais de antecedência! Dificilmente alguma coisa fugirá do controle ou dará errado. Pois tudo foi meticulosamente planejado e para cada problema previsto, há uma solução possível. Então não é necessário usar o “jeitinho”. Mas sem o jeitinho, a flexibilidade também fica de lado. E na vida nos deparamos com inúmeras situações em que é preciso ter jogo de cintura e flexibilidade. Simples exemplo: fui a uma padaria com uma amiga, dividimos um bolo, cada uma tomou um café. Pedimos para dividir a conta. Resposta da atendente: „Não posso dividir a conta, pois o bolo é uma unidade.“ Isso em uma padaria de interior, que não aceita cartão nem dá nota fiscal. Era só ela ter dividido na calculadora e dizer quanto cada uma teria que pagar, ela ainda assim receberia de uma vez só o valor total.

Amo a arquitetura e os castelos. Amo como tantas paisagens parecem saídas de contos de fadas!

Palácio de Sanssouci, Potsdam, foto de arquivo pessoal

Palácio de Sanssouci, Potsdam, foto de arquivo pessoal

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A típica arquitetura enxaimel, na cidade de Rothenburg ob der Tauber, uma das mais belas da Rota Romântica, foto de acervo pessoal

Amo como você é „direta“, Alemanha. Aqui não há enrolação nem discurso nas entrelinhas. O alemão diz o que pensa, é direto, sem rodeios. Pode parecer ríspido, mas é prático. Se prometeu que vai fazer, faz mesmo. E se não dá, diz “não” e pronto. Direto, simples, eficiente.

Aliás, admiro muito a eficiência alemã, o quanto se faz das horas de trabalho o mais produtivo o possível. Pode ser que não se trabalhe tantas horas no dia, mas as horas trabalhadas são muito bem trabalhadas! O mesmo se vê em pequenos negócios, tocados individualmente ou com poucos colaboradores; como pouca gente consegue fazer tanta coisa funcionar em um lugar! Acho incrível e tenho me adaptado cada vez mais a essa linha de trabalho, a otimização do tempo e da produção, que consequentemente gera tempo livre de qualidade.

Um sábado no centro histórico de Rostock, muita gente aproveitando o sol, comércio e um café ao ar livre, foto de arquivo pessoal

Mas o excesso de eficiência às vezes irrita: nem ouse chegar ao balcão da padaria sem saber na ponta da língua o que vai pedir e não mude de ideia depois de pedir, a atendente ávida por servir rápida e eficientemente a fila de clientes ficará irritada e você pode ouvir algo não muito agradável em resposta! Em um restaurante por exemplo, frequentemente o simpático garçom quer tirar seu pedido de bebida antes mesmo de lhe dar um cardápio. Sei que o objetivo é servir o cliente com eficiência, mas na maioria das vezes vamos a um restaurante para desfrutar de uma boa comida e uma boa conversa com amigos, não queremos nos sentir afobados ou sob pressão! A eficiência excessiva nem sempre é apropriada!

Mas como nem só de Nutella e chocolate se nutre o amor por um país, são justamente essas características do povo alemão, como eficiência, que tornam esse país um lugar tão sólido e seguro, um lugar onde me senti desde o início bem acolhida e que mesmo estando tão longe de casa, tenho a sensação de que dificilmente vou “ficar na mão” ou vou me ver desamparada. Por trás dessa cultura da eficiência, existe um povo disposto a dar o seu melhor para fazer a sua parte na sociedade, além é claro, dos programas de integração. Esse senso de comunidade, de que depende de cada um de nós fazer sua parte para uma vida melhor para cada um, é algo de valor imensurável, pois mesmo não tendo um grande círculo de amizades como tinha no Brasil, eu sinto que faço parte de uma comunidade. E quem está longe de casa, longe de seus entes mais queridos, sabe o valor que tem se sentir acolhido!

Görlitzer Park, um dos muitos parques de Berlim, foto de arquivo pessoal

Görlitzer Park, um dos muitos parques de Berlim, foto de arquivo pessoal

São pequenas coisas, como em um dia em que cheguei de volta de férias no Brasil, ao passar pelo controle policial no aeroporto ouvi do policial que tinha meu passaporte em mãos: “Willkommen zu Hause“. Sim, eu estou em casa!

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Cristiane Schlup é de Blumenau, médica e vive na Alemanha desde 2013. Para saber mais sobre ela acesse a mini-bio clicando aqui.   Para atualizações, sigam-nos no Instagram, Facebook e Twitter