Skip to content

Trabalhar na Holanda

26/05/2016

bz_holandaAna Fonseca – Holanda

Depois desses posts sobre trabalho no México e na Espanha,  me senti inspirada para comentar um pouco sobre o mercado e condições de trabalho na Holanda. Por favor, vejam que meus comentários aqui são superficiais, baseados em experiência pessoal e de modo algum irão cobrir todas as duvidas sobre quem pretenda trabalhar por aqui.

Na Holanda trabalha-se 40h por semana e a produtividade é intensa. Em muitos lugares trabalha-se continuamente ou apenas com 30 minutos exatos para comer algo rápido. A produtividade holandesa é uma das mais altas do mundo, e o “burn out” – mesmo durante épocas de crise com pouca oferta de trabalho ou época de aquecimento econômico – lugar comum. Eu mesma já estive várias vezes à beira de um burn-out. Acho que o que sempre me salvou foi ter hobbies, uma vida pessoal/emocional muito tranquila e estável (e confesso que ser casada com um holandês também ajuda a entender a cultura daqui, apesar de meu marido não ser comunicativo). Muitas pessoas sofrem muito psiquicamente com cobranças de velocidade e perfeição do serviço pelos patrões (ou auto-cobrança) e ficam incapacitadas durante algum tempo para exercer uma profissão. Isso porque dá para se perceber que em todos setores da economia há menos trabalhadores atuando do que seria necessário. As pessoas são realmente sobrecarregadas e muito eficientes na Holanda, e o estado contínuo de stress e alerta acaba cobrando um preço.

Aqui era muito comum candidatos a empregos buscarem contratos de 24h, 30h, 32h, 36h semanais, principalmente mães de crianças pequenas. Lógico, não há empregados domésticos e baby-sitters são raríssimas. A Holanda já chegou a ser o país no mundo com mais trabalhadores “part-timers”. Mais de metade da forca de trabalho feminina na Holanda trabalhava part-time (e declarava profunda exaustão, pois nas horas fora do escritório cuidavam dos filhos, casa, jardim, etc.). Mas isso mudou. As ofertas atuais são geralmente de 40h semanais ou no máximo 32h semanais – isso com muita sorte. Se alguém na Holanda comenta que trabalha “part-time” essa pessoa tem o emprego provavelmente já há muitos anos e não larga o osso.

As férias podem ser tiradas em dias soltos e a partir de alguns meses de trabalho. Alias, pode-se tirar até horas soltas.

Geralmente as empresas pagam transporte, mas muitas só dão emprego a candidatos que morem perto (isso é já esclarecido no anúncio de emprego). Algumas empresas no centro das cidades não pagam transporte, porque supõem que todos os funcionários possam ir de bicicleta todos os dias, inclusive invernos, dias de temporal e nevasca. Se você tem no seu contrato de trabalho uma cobertura mensal fixa dos seus gastos de transporte e tiver que eventualmente trabalhar dias extras, certifique-se de que essas momentos serão também cobertos no quesito gastos com transporte. Eu já fui convidada a trabalhar dias extras durante um mês de intenso volume de tarefas e na hora que declarei gastos extras com transporte o setor de Recursos Humanos recusou com veemência cobrir meus gastos (extras) com ônibus e trens. Ainda me informaram: “Você tem que recusar ao seu supervisor quando ele te pede para trabalhar extra, porque você não tem como vir de bicicleta e nos não vamos pagar custo extra de transporte de jeito nenhum”. Meu supervisor estava do meu lado e abaixou a cabeça ficando quietinho, sem emitir opinião nenhuma a respeito, nem pedir desculpas. Então, fique avisado(a)! Se algo for pedido a você que não está no seu contrato, não aceite de imediato para se mostrar flexível e colaborador, uma pessoa de boa vontade, etc.. Não responda de imediato,  nem verbalmente nem por e-mail. Veja discretamente primeiro com seus colegas (por exemplo, na hora do almoço ou quando forem juntos apanhar um café) se na cultura da empresa costuma-se trabalhar extra à noite, em feriados, ou fazer viagens sem ser recompensado  – ou se é recompensado pelas horas extras mas não pelo transporte, etc.. Eu tenho o tipo de perfil que aceita fazer viagens para fora do país (mesmo quando gravida, doente, ou com filhos pequenos, mentalmente esgotada, etc.). No problem. Mas atualmente não aceito em hipótese nenhuma trabalhar em fins de semana, feriados, depois das 20h etc. apesar de já ter feito muito disso durante anos e anos e anos. Eu numa empresa vazia, no fundo de uma salinha esquecida, respondendo como louca a e-mails atrasados… never more! Posicione-se.

BLOG Bullshit2

Em vários anúncios de emprego, quando mencionam o salário mensal bruto, o mencionam numa faixa de variação (exemplo; “salário oferecido entre tanto e tantos euros por mês, dependendo da experiência prévia”). Ou mencionam o salário anual, não mensal.

Na Holanda não há 13 salário, claro que não. Mas recebe-se um extra para as férias. Não há carteira de trabalho, há um SOFI number, que é o código para você pagara impostos ao governo, receber eventualmente um auxílio desemprego, etc..

Roupa… os holandeses não são um povo muito formal, se comparamos aos alemães ou ingleses. Mas, na dúvida, é melhor optar por roupas mais conservadoras. Numa entrevista (qualquer que seja) fique na calça preta, blusas de cor lisas e sem estampas, sapato fechado, cabelo preso. Nada de unhas pintadas, perfumes, acessórios, coisas “engraçadas”. Pode ser aconselhável manter um ou dois jogos de roupas para serem usadas exclusivamente para entrevistas. Pode discretamente perguntar ao RH como é a cultura de vestuário na empresa. Veja durante as primeiras semanas como a equipe se veste e procure não destoar dos seus colegas.

Mais e mais popular na Holanda para selecionar para diversos trabalhos de escritório é um teste de inteligência e rapidez feito online. Isso mesmo antes de ter a primeira entrevista. O teste consiste em verificar o nível dos candidatos em rapidez para encontrar soluções, lógica verbal ou matemática, fazer analogias com modelos semelhantes. etc.. Devo dizer que os holandeses são um povo extremamente técnico, científico e inovador, treinados para buscar soluções eficientes na física e na química e engenharia. Por isso, costumam medir o grau de inteligencia das pessoas pela capacidade matemática, espacial, física, etc. e não linguística, verbal, persuasiva, abstrata, etc.. Assim as melhores posições, chances e  salários estarão nos setores que exigem essa capacidade “técnicas”, de soluções eficientes e criativas. Se você tem talentos filosóficos, artísticos, linguísticos, etc.. a Holanda não é muito promissora no mercado de trabalho. Seria melhor encaminhar seus talentos para a área comercial/administrativa, de educação/pedagogia, etc.. (in my humble opinion). #ficaadica 

BLOG Bullshit

Numa nota final, em trabalhos onde se exige a língua holandesa como língua oficial, pode ser que emitam uma nota dizendo que o holandês praticado é do tipo ABN (Algemeen Beschaafd Nederlands). Ou simplesmente AN (Algemeen Nederlands). Há uma longa estória sobre quando o ABN surgiu, no que consiste… Mas pra resumir: Esse é o holandês formal, sem vícios de linguagem, erros gramaticais por menores que sejam, hesitações ou resquícios de sotaques estrangeiros / regionais. Poucas pessoas, mesmo as mais instruídas ou com nível universitário ,dominam a forma ABN. Os nativos da cidade de Haarlem são os que mais praticam o holandês puro, o ABN, compreensível, bem articulado mas sem pedantismo, gramaticalmente correto e sem vícios. Dizem as mas línguas que recusar um emprego a uma pessoa bem preparada por “não ter uma fluência ABN” é uma maneira sutil (ainda que controversa) de discriminar estrangeiros e manter os melhores empregos para os nascidos e criados por brancos holandeses (blanke nederlanders, autochtoon).

Geralmente depois de uma entrevista eles te avisam quanto tempo ira levar para você ter uma resposta (“até o fim dessa semana” ou “daqui a dois dias”), por telefone ou por email. E cumprem certinho isso.

As agências de emprego que oferecem trabalhos para estrangeiros (e não só estrangeiros) são várias: Undutchables, Unique, Kelly Services, etc. Há vários sites para buscar ofertas e empregos, uns dos mais conhecidos sendo o Monsterboard e o Jobbird.

Bom, para resumir, é isso. Como disse no início desse post, de modo algum cobri tudo sobre “Como trabalhar na Holanda”.

**********

Alguns termos básicos que você precisa saber, mesmo se for trabalhar numa empresa multinacional onde a língua holandesa não é falada ou exigida:

Solliciteren: candidatar-se a um emprego, com por exemplo uma sollicitatiebrief (carta de candidatura, nao ‘e carta pedindo emprego, e uma carta respondendo a um anuncio especifico). Quem solicita emprego é um kandidaat, ou mais popularmente “werkzoeker”.

Kantoor: escritório. Hoofdkantoor: matriz, empresa mãe, direção da empresa. Filiaal: uma filial.

Uren: horas. Kantooruren: horas trabalhadas, horas em que o escritório está aberto.

Functie:  posição dentro da empresa, titulo, cargo. Atenção: Existe na língua holandesa a palavra “positie” mas esse vocábulo não se refere a uma função profissional, mas sim a “roupa de gravidez” (positie kleding). Geralmente as empresas quando oferecem um emprego tem uma lista de Functie omschrijving detalhando todas as obrigações de quem assume aquela “functie”. Pode ser que outra exigências ao empregado sejam cobradas que não estejam na “functie omschrijving”.

Vakantie: ferias  Vakantiedagen / vakantie uren : dias de ferias / horas de ferias

Medewerker / medewerkster: os trabalhadores / colaboradores na empresa.

Co-medewerker(s) = collega’s. Sao as pessoas que ocupam a mesma functie que você, no mesmo departamento.

Fonctionnaire:  Funcionário do setor publico, ou do governo Ou então: de ambtenaar, de rijksambtenaar, de staatsambtenaar, de beamte.

Baas: patrão. Nao ‘e só o dono da empresa, o presidente, etc. As vezes a quem você se submete diretamente (um chefe de departamento, um diretor) é o seu “baas”.

Baan: emprego. Ha também o termo no diminutivo “Baantje”  (trabalhinho). Não e um termo pejorativo, de modo algum. Pode ser um emprego part-time, um estagio, um trabalho temporário, voluntario, etc.

Stage / stagiaire: estagio, estagiário (a).  Vrijwilliger: voluntário.

Salaris: salário.

Pensioen: aposentadoria.

Contract: contrato escrito. (Een) Contract ontbinden: quebra de contrato, demissão.

Ontslag: demissao. Ontslaan: demitir.

Pause: pausa. Podem ser previamente estabelecidas (todo mundo tira no mesmo horário) ou não. Nesse segundo caso o trabalhador tem que ver com os colegas se ele pode sair a que horas, qual o melhor horário, etc.. Lembrando que a pausa de almoço na Holanda e de 30 minutos e não pode ser ultrapassada. E de bom tom tirar menos de 30 minutos.

Dagtaak (plural: dagtaken): Obrigações diárias.

Diploma: diploma. Certificaat: certificado.

Vervoer: transporte. Openbaar vervoer (ou simplesmente “OV”): transporte publico em oposto a eigen vervoer (seu próprio carro, bike, etc.).

______________

Ana Fonseca vive na Holanda desde 1999 e administra o blog Brasil com Z junto com a Carla Guanais (Itália). Para saber mais sobre ela acesse aqui. Veja fotos da Ana e de todos os outros autores do blog no Instagram acessando aqui. Veja aqui nosso Twitter e acesse nossa pagina no Facebook para atualizações e curiosidades sobre a vida fora do Brasil acessando aqui. Caso queira nos contactar para candidata-se a escrever para o blog envie um e-mail para blogbrasilcomz@gmail.com e apresente-se, explicando porque se considera capaz e quais suas expectativas em relação ao BZ. Agradecemos ! 

3 Comentários leave one →
  1. Simão Simões permalink
    29/05/2016 13:31

    Teu post me lembrou muito uma conversa que tive com duas holandesas. Elas falaram que amavam o Brasil porque sempre viam pessoas mexendo no celular no trabalho e até jogando paciência hahaha!

    Ou seja, as pessoas trabalham, mas não são metódicas e severas como na Holanda.

    Interessante isso do vale-transporte. Uma forma de incentivar na marra a pessoa a usar bicicleta e não comprar um carro! 😀

    • 29/05/2016 16:21

      Eu acho os holandeses bem mais rápidos e produtivos. Um ponto negativo é que não conseguem dividir a atenção quando estão fazendo uma tarefa.
      Aqui não tem vale-transporte. O que tem é um cálculo da distância da sua casa ao trabalho. A partir disso a empresa anuncia o quanto dos gastos de transporte público irá cobrir. Para isso o funcionário tem que ter um OV-Chipkaart (cartao eletronico para ser usado no transporte publico) pessoal e intransferível para ser usado somente no trajeto de ida e volta do trabalho. No fim do mês ele entra no website do OV chipkaart e imprime a descrição do trajeto que fez diarimente de bonde / trem ou/e ônibus e dá para o RH como comprovante.
      Um abraço!

  2. edvanfleury permalink
    02/06/2016 6:00

    Eu também não aceito ficar fazendo hora extra e muito menos trabalhando no fim de semana. Isso é um horror. Nossa essa sua imagem do travesseiro vou usar e falar sobre ela no meu canal pq a gente usa na China ahahaha, ou melhor, esse modelo é vendido online

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: