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A morte e os mortos no Japão

03/11/2016

japão W. Anderson – Japão

Uma das primeiras coisas que aprendemos no idioma japonês, são os números. E quando estamos estudando eles, aprendemos que alguns possuem mais de uma forma de ser expressados. O número 4 é sempre ensinado com grande ressalva, pois além do próprio número ser omitido em muitas situações (como por exemplo, o número de uma casa ou apartamento dificilmente terminará em 4), o fonema dele também está associado à morte.

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Um clássico do terror japonês no cinema: “The Ring”. E põe terror nisso! 

Falar sobre morte com um japonês é algo difícil de acontecer. Eles são muitos reticentes em falar deste assunto. Possuem medo até de fantasmas, principalmente se alguém disser que uma pessoa conhecida, apareceu em sua frente, depois de morrer. Já comentei aqui, em post anterior, sobre um colega de trabalho que foi embora depois de uma brincadeira que fiz, simulando a presença do antigo presidente da empresa que

trabalhei em Tóquio. Há, inclusive, um costume de se colocar um copo com sal grosso ao lado da porta na entrada das casas e apartamentos para espantar os fantasmas.

blog-ghost

The Ghost in the lantern Kuniyoshi, via Pinterest
Há uma prática que, quando alguém morre numa residência, ao decidir alugar aquele imóvel, deve ser informado ao interessado que ali já faleceu uma pessoa e inclusive a razão da morte. No condomínio onde moro, um conjunto habitacional de 80 apartamentos, há um onde houve a morte do antigo morador.  Atualmente esse imóvel encontra-se vazio, além de não ser colocado em oferta para alugar.

Contudo, em cidades como Tóquio e Osaka principalmente, com a escassez de imóveis para morar, começam a aparecer pessoas dispostas a alugar tais imóveis por um preço muito menor do valor de mercado. Isso é algo que as imobiliárias tem gostado, pois é melhor que um imóvel esteja alugado por um preço bem menor do que estar vazio por uma fatalidade.

Outra superstição nesse sentido, é a ausência de andares com final 4, em hotéis e hospitais, onde neste último, o 4º andar é geralmente usado como depósito, não ficando o elevador social habilitado a parar neste andar, além de não haver quartos também com o final 4.

salas-hospital

andar hospitalar com a ausência da sala “4” – by nippo.wordpress.com

Talvez a minha maior surpresa foi ter de localizar o norte com uma bússola para poder colocar a cabeceira da cama em posição diferente: Não coincidindo jamais em deixa-la em posição ao norte, pois tal situação sempre acontece em funerais, onde a cabeça do falecido fica sempre ao norte durante seu funeral.

Mas uma nova mania estranha começa a tomar formas de um grande negócio… Um empresário do ramo de lápides, criou um aplicativo móvel, onde baseado no princípio de realidade aumentada, assim como o popular jogo do Pokémon Go, permite que ao chegar em determinado lugar onde possa ter boas lembranças de um ente querido falecido, uma notificação chegue ao aparelho, podendo reproduzir uma mensagem. Geralmente, a mensagem é um vídeo feito pelo ente querido quando já sabia que ia morrer.  O serviço é free para até 10 mensagens e usuários assinantes podem compartilhar até 30 mensagens com 200 pessoas. Para entender melhor, olhe esse vídeo curtinho e emocionante:

Depois de algumas (e duras) críticas ao plano de negócio, outra finalidade para esse aplicativo foi sugerida em servir também para lembrar a alguém (vivo!), ou uma emoção feliz que já teve, ao passar por determinado local, por exemplo. Vejam abaixo:

E aí?  O que vocês acharam dessas superstições japonesas com fantasmas, mortes, números, pontos cardeais e afins?

________________

W. Anderson é engenheiro elétrico e mora com a família há 12 anos no Japão. Para saber mais sobre ele clique aqui.  Vejam fotos dele e de outros autores no perfil do BZ no Instagram. E sigam nossa página no Facebook acessando aqui.

11 Comentários leave one →
  1. 03/11/2016 11:26

    Esses japas são tão tecnológicos e tem medos de… fantasmas? Deve ser devido a um cultura milenar com superstições, mitos. Aí até hoje ficou. Vai ver, é isso. Se eu morasse aí iria viver assustantdo os japas com mil estorinhas. Achei os vídeos que você colocou no final super fofoletes!

    • 03/11/2016 11:35

      Essa cultura milenar talvez seja o maior obstáculo para que as mudanças que a sociedade tanto precisa, serem adiadas ao máximo.
      Agora, se você ficasse assustando os japas, provavelmente não iria durar muito na vizinhança. Eles não apreciam em nada brincadeiras desta natureza, nem mesmo quando você brinca dizendo algo e depois fala que é mentira ou que na verdade, é diferente.

      • 03/11/2016 11:45

        Então minhas estorinhas seriam sempre verdade. Eu iria dizer que vejo o pirata holandês voador! Dá um google para descobrir quem ele é…

  2. Carla Alves permalink
    03/11/2016 18:06

    Excelente Artigo !!! Sempre visito este blog, e tenho aprendido muitas coisas legais aqui neste blog, sempre tem informações e dicas interessantes, muito bom…

    Parabéns !!

    Visite Meu Site : http://noticias24horas.net.br/

  3. 04/11/2016 12:31

    Adorei o texto, Anderson! Nooossa….como eles passam programas na tv japonesa sobre fantasmas e lugares mal assombrados, nao? Eu adorava assistir, mas nao tinha medo de nenhum deles. Porem, podia ver pela cara dos participantes que eles estavam desesperados!! Isso, fora o “kaidan banashi”, que eles adoram fazer no verao, ne? Ir pro meio da floresta de noite para contar estorias de fantasmas! Vai gostar de fantasma assim la…no Japao! Um abraco!

    • 04/11/2016 12:48

      Verdade…, eles morrem de medo de fantasmas, mas passam horas na TV vendo programas falando disto. 😲

      • Arlete permalink
        08/11/2016 16:29

        KKK! Vai entender! 😀

  4. Arlete permalink
    08/11/2016 16:32

    Eu não sabia que os japoneses eram assim tão supersticiosos. Os jovens tb ou só os mais velhos? Até tenho na cabeça aquela imagem clichê que na Asia eles aceitam muito melhor a morte que a gente e até chegam a festejar em algumas regiões. Então, isso na realidade não existe?

    • 09/11/2016 4:40

      Em termos…
      Os japoneses, eles não ficam lamentando a morte de um ente, como nós. Morreu, morreu, mas não me assombre, por favor. É assim que eles pensam.
      Muitos temem, por exemplo, já que foram levados ou desprezaram a velhice dos pais ou avós, nem pensam muito neles depois da morte, para não “atrair de volta” e ficar sendo assombrados.

  5. 09/11/2016 19:03

    Envia esse vídeo para todos os seus conhecios japoneses, é óóótimo!!!

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  1. A morte e os mortos no Japão — Brasil com Z | O LADO ESCURO DA LUA

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