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O museu Cidade do Vinho (“Cité du Vin”) em Bordeaux, França

12/05/2017

Ana Fonseca – Bordéus, França

Como prometi dias atrás no meu post sobre Bordeaux, hoje sigo com mais uma atração na cidade: o novo museu chamado “Cidade do Vinho” (La Cité du Vin). Inaugurado em julho/agosto de 2016, é a mais nova atração da cidade.

Muito contemporâneo por fora (tem um “arzinho” do Guggenheim de Bilbao que visitei ano passado, mas em termos de arquitetura não chega aos pés) e très, très français por dentro. Você chega lá facilmente com o bonde linha “B”.

Provando que estive lá: feliz, diante do museu “Cidade do Vinho”.

Parece que o objetivo da concepção arquitetônica era que o museu tivesse algo da forma de um cântaro de vinho – mas o povo local esculacha e diz que parece mais com um escargot. Eu acho um escargot com a concha achatada e sem cabeça/anteninhas. Qual sua opinião?

No térreo, depois do controle do interior das bolsas dos visitantes por um guarda na porta, há a venda de tíquetes e te ensinam a usar o aparelho que você vai conectar em cada atração do museu para iniciar a apresentação. Os aparelhos têm a opção de áudio em oito línguas. Como não poderia deixar de ser, há no térreo uma loja escura, futurista e bem sofisticada de vinhos, mais uma lojinha de suvenires. A loja de suvenires é bem moderna, com colunas e estantes, e os produtos vão desde livros, até acessórios para garrafas de vinho e taças especiais para degustação – totalmente negras para você tentar descobrir em treinamento de degustação se está tomando vinho branco, rosé ou tinto, ou com uma borda inclinada a um ângulo de 14° para que você possa sentir melhor o aroma. Uma taça dessas da marca EVA Solo do tipo “Syrah” de 40 cl virou objeto de desejo, não consigo esquecer e vou procurar na minha próxima viagem à França ou pela internet. Por outro lado, os preços podem se irreais: eu tinha previamente visto uns copos para água, coloridos feitos de acrílico em um supermercado francês a 1EUR a unidade – o mesmo modelo de acrílico, mas com uma “base” tal como copo de vinho na loja do museu estava a 14EUR !!!!! Abaixo, veja os copos para degustação, lindos:

O museu está no segundo andar do prédio.  Assim que você chega lá, você se depara com três telas enormes mostrando continuamente as mais importantes áreas vinícolas do mundo: Napa Valley (EUA), Okanagan Valley (Canadá), Valle del Elqui (Chile), Argentina, Uruguay, Vale do Douro, Espanha, Bordéus+St. Emilion, Champanhe e Borgonha (FR), Alemanha, Hungria, China, Stellenbosch (África do Sul), Île de Réunion, Indonésia, China e Japão. Os cenários eram tomadas aéreas feitas por avião/helicóptero e totalmente surpreendentes e deslumbrantes, trilha sonora monumental. Dava vontade de desmaiar de tanta beleza e achei que para “abertura” do museu esses franceses arrasaram. O mais mágico foi ver vinhedos na China, com um templo chinês gigantesco e realmente fora desse mundo, filmado de dia e de noite. Nisso tudo você fica se perguntando por quê o BR tão grande e com tantos microclimas não tem vinhedos de peso internacional.

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Por todo o museu há inúmeras “caixinhas” que você pode acionar com seu aparelho e assim ficar sabendo mais sobre a história do vinho. Um história que começou milhares de anos antes da era Cristã, desde os primeiros cultivos na China, no Cáucaso (a atual Geórgia), Mesopotâmia e Irã, passando pelos egípcios – que foram os primeiros a registrarem o processo de confecção feito por escravos, os gregos e até a época romana, medieval e atual. As “caixas” de filminhos são bonitas, com hologramas e cenários 3D. Você também aprende sobre as pragas e fraudes do vinho, os perigos do alcoolismo, pasteurização, o que são exatamente termos como “AOC”, “terroir” e outros, o surgimento da rolha, os vinhos que explodiam, o comércio pelo mundo, etc.. O que eu gostei mais de saber nessa visita ao museu foi sobre os efeitos do aquecimento global na vinícolas do mundo. Na verdade, isso pode ser um ponto positivo: começam já a surgir na Europa e Canadá (e sul da América Latina) áreas mais “quentes”e apropriadas para o cultivo vinícola ( “cultivos em áreas extremas / limítrofes”). Vinho de boa qualidade já está sendo cultivado no sul da Holanda e norte da Alemanha, por exemplo. Isso é muito positivo, novas áreas no “planeta vinho”. Se o Brasil souber aproveitar essa chance para os proximos anos…

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Nessa parte do museu você já viu quase a metade de tudo, e é hora de aprender a reconhecer aromas através de umas cafungadas. O museu é bem inteirativo e você pode determinar o ritmo e velocidade da visita.

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Marido e filho tentando identificar alguns aromas. 

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Aromas de baunilha, café, fudge, tabaco, madeira, mel, frutas, flores,… Tudo isso você vai aprender a identificar através das fungadas… ou não. Depende muito da fisiologia de cada pessoa.

O antigo e o novo testatmento mencionam inúmeras vezes em diversos textos “vinho, “vinícola” e outras palavras relacionadas, tanto em eventos diários, quanto casamentos, festas e rituais. O crescimento do catolicismo na Europa a partir da Idade Média e a incorporação do vinho à eucaristia nos rituais de missa deram um impulso ao cultivo e uma justificativa para o consumo. Há lindos filmes e vídeos a respeito.

Teve um momento que não consegui mais localizar marido e filho. Descobri uma “sala” que ainda não tinha visitado, escondida através de uma cortina de fios pesados de plástico. Eles estavam lá. O lugar era circular, com cadeiras vermelhas para se recostar e admirar uma projeção em tela circular no teto, com menções da literatura francesa, romana, indiana, espanhola, italiana (etc) sobre embriaguês e erotismo, vinho e sedução, champagne e sonho, vício e arte, ritual e pecado. Sim, estar apaixonado é estar embriagado. As vozes masculinas e femininas liam em sussurros, gemidos e risos as passagens de livros, entrecortadas por imagens de pinturas (pense em “Déjeuner sur l’herbe”, nesse estilo) e desenhos projetados e que se sobrepunham, rodavam e se apagavam. Fiquei imaginando como seria a tradução daquilo tudo para o holandês, se teria o mesmo impacto para meu filho e meu marido. Eu estava nesse ponto da visita ao museu já meio tonta e com vontade de tomar uns goles. Achei essa parte meio picante e muito charmosa, muito francesa e acadêmica. Quando fiz uma pausa, olhei para o lado, meu filho estava sorrindo de orelha a orelha. Revirou os olhos. Achou cômico aquilo tudo.

Outra parte interessante do museu: o depoimento do maior colecionador de vinhos do mundo (um francês, claro) que ficou multimilionário com o advento da internet – as vendas dele explodiram. E garrafas e “taças” gigantescas cujo conteúdo se “movia” ao seu toque e começavam um tema. Tudo muito high tech e criativo.

Nos restavam ainda algumas atrações a visitar e já estávamos perto do horário de fechamento do museu. Vimos rapidamente o que faltava, devolvemos os aparelhos e subimos ao oitavo andar para uma degustação e umas fotos.

O teto do oitavo andar é decorado com milhares de garrafas vazias. Simples e bonito. 

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Durante a degustação, eu e meu marido trocamos nossas preferências. Eu resolvi arriscar com um rosé francês e meu marido um tinto (não lembramos os nomes). A “serveuse” oferecendo minha taça de vinho enquanto eu fazia uma foto dela – olha eu no canto da foto utilizando o “flash. Está achando pouco vinho na taça? Inocente, não sabe da nada. Primeiro, ela tinha post só um fundinho de vinho na taça (os franceses acham chique beber assim). Eu tive vontade de dizer: “Chérie, en-tor-na!”.  Mas fiquei muda, levantei o queixo fiz uma indicação com o rosto e olhos que era para pôr mais, pelo menos um quarto. O ambiente estava bem tranquilo, pouca gente.

Atenção: a “dégustation” é só de UM copo e UM tipo de vinho por pessoa. Meu filho recebeu uma taça de “jus de raisin” (suco de uva). Achei errado eles servirem o suco de uva numa taça de vinho para uma criança, mas bom… estamos na França, estamos de férias, não sou nenhuma puritana e meu filho sabe distinguir as coisas. A vida segue.

Considerações finais:

Vale a pena a visita?

Bom, depende. Se você é apaixonado(a) por vinhos e história como eu, então sim – vale muito a pena! Eu sou do tipo que ama ver adegas de vinho do Porto em Vila Nova de Gaia, ou de Xerez em Jerez de la Frontera. Eu gostei médio da Maison Leffe (em Dinant, na Bélgica) e odiei cada segundo da visita à cervejaria Maredsous. Heineken, odeio. Por outro lado, acho a Jopen em Haarlem perfeita.

Conheço pessoas que acham vinho uma bebida muito “complicada” e que jamais iriam visitar esse lugar. Meu filho obviamente não bebe, mas gosta de histórias de civilizações e estava querendo muito visitar o museu. Meu marido gosta é de cerveja, não gosta de lugares fechados e atrações culturais (sério, estou falando sério) durante as férias, principalmente no verão ou quando o tempo está bom, foi com um pé atrás mas no final gostou – não demonstra e não confessa porque é holandês, quer portanto dar uma de “cool”, mas gostou.

Esse museu “Cité du Vin” é bem grandioso, e cada demonstração visual muito original, surpreendente mesmo. Mas, de novo, aviso que tem que se gostar do tema, muito específico e muito cheio de detalhes.

Preço?

Humm, preço… Eu achei a entrada cara (20EUR por adulto), o preço justo deveria ser de 15EUR a 18EUR máximo. Como o museu é relativamente muito novo (e não estava cheio) talvez eles ajustem isso com o passar do tempo. Imagina uma família “básica” com dois adultos e duas crianças pagar 50EUR (o preço “pacote” para uma familia) para uma visita de algumas horas? Mais o custo do bonde e/ou estacionamento? Não dá.

E perto do museu? Algo mais para se fazer?

A modernosa ponte Jacques Chaban-Delmas. 

Os arredores do museu também não são bonitos (eu falei que ia ser honesta…). Tirando a foto acima que você vê com minha carinha e a ponte cuja parte central se suspende, o resto é cheio de guindastes e está sob construção, sem prazo para terminar (veja abaixo).  Tudo revirado.

Acho que eu voltaria a Bordeaux depois de alguns (vários) anos só para visitar a praça da Bolsa com o Miroir D’Eau (o lugar mais bonito de toda a cidade, veja meu post anterior) e o museu quando o entorno estiver 100% pronto.  Por outro lado, existe o “Les Hangars” que vai do museu ao longo do rio, uma região de várias lojas “outlet” com muito desconto, sempre de 30%, podendo chegar a 70%, que loucura!!!! Só grandes marcas francesas (de porcelanas, roupas, sapatos, moda praia) com descontão! Morri. Abre um parênteses: dels me deu bom gosto mas não deu grana. Fecha parênteses.  E por lá muitos bares e restaurantes também, com o bonde sempre a alguns metros. O Les Hangars está 100% pronto, bem decorado com flores, plantas, sombra, gente fazendo “cooper”, tirando fotos. Calculo que seja um ótimo programa no verão visitar o museu cedo pela manhã e ir flanar (isso é super francês, n’est ce pas?) pelo rio ao longo do les Hangar para almoçar e depois talvez fazer umas compras no outlet. Infelizmente, eu já estava bem cansada e não fiz fotos. Mas peguei essas duas no Google images para vocês terem uma ideia do ambiente:

Conclusão: O museu “City of Wine” é mesmo como vinho: quanto mais o tempo passar, mas ele vai ficar melhor. #naminhahumildeopinião

Veja mais fotos de Bordeaux e da “Cidade do Vinho” já publicadas essa semana no Instagram do blog Brasil com Z !

À bientôt!

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Ana Fonseca vive desde 1999 na Holanda. Sigam o “Brasil com Z” no Facebook para atualizações diárias sobre viver, turistar, estudar e trabalhar no exterior. Vejam fotos dos nossos autores pelo mundo seguindo nossa conta do “Brasil com Z” no Instagram. O blog Brasil com Z dá tuitadas também: http://www.twitter.com/blogbrasilcomz.  Quer participar como autor(a)? Envie-nos uma mini biografia e um texto sincero de apresentação. Caso seu potencial combine com as expectativas do blog, entraremos em contato: blogbrasilcomz@gmail.com Agradecemos! 

2 Comentários leave one →
  1. edvanfleury permalink
    12/05/2017 9:15

    Como eu sou paranoico eu ia ficar com receio de ficar cheirando por esses buraquinhos.

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