Aaah, ir morar no mundo ocidental desenvolvido. Quem não quer? A cultura, a segurança, os bons serviços públicos, as possibilidades de estudo e trabalho…

Porém.

Tem muito brasileiro que acha que morar fora, principalmente na Europa, é uma vida de rico. Que as coisas vêm mais fáceis, todo o serviço doméstico é feito por aparelhos (como se os aparelhos se ligassem e se desligassem sozinhos), e que você mora muito melhor e viaja muito mais que no Brasil. Não é bem assim.

Acho que nunca trabalhei tanto na minha vida desde que vim morar na Holanda. Sério. Principalmente quando tive meus bebês. Eu trabalhava 4 dias por semana (contrato de trabalho de 32h/semana), e quando chegava do trabalho em Amsterdã ia pegar filho na creche, fazer o jantar e depois cuidar da casa lavando banheiro e passando roupa até as 23h, ou meia-noite. Quando eu finalmente esticava a coluna na cama, meu bebê acordava chorando meia hora depois. Eu me sentia constantemente destruída, física e mentalmente. Meu dia de “folga” do trabalho não era de “folga” coisa nenhuma: eu tinha obrigações sociais, que fazer compras, limpeza, visitar pessoas. Meu marido enfrentava muito engarrafamento para o trabalho, tanto na ida como na volta. No sábado ele fazia supermercado, cuidava da limpeza dos carros, do jardim, do quintal, dos janelões de vidro. Com a chegada do segundo bebê, tudo se intensificou. E minha mãe no telefone dizia: “Sabe Fulana? Ela teve um bebê. Tem duas babás. Uma para o dia, e outra para a noite. Pois ela não se levanta da cama quando o bebê chora. Isso é o trabalho da babá da noite. Até quando ela vai jantar fora ou sai de viagem, leva a babá, para não se estressar.”

A hora de trabalho para serviços manuais aqui na Holanda é uma das mais caras do mundo. Se você for pagar alguém para reformar um banheiro, é melhor que esteja preparado para ir dar uma boa ajuda, carregando entulho, trazendo material para dentro, colocando azulejos. Foi assim que meu marido fez, durante uma reforma na cozinha e no banheiro da nossa primeira casa. Se ele não tivesse ajudado, as obras teriam durado muito mais e sairiam muito mais caras pela mão-de-obra. E pagar uma pessoa para ajudar na limpeza doméstica pode custar por hora tanto quanto o que você ganha para realizar um trabalho especializado. Quem paga ajudante de serviço doméstico, paga por 3h a 4h semanais, no máximo. O(a) ajudante tem que fazer bem rápido e seguir um esquema pré-determinado. Quando eu conto isso para minha mãe ou meu pai, eles sempre dizem que “fazer todo o serviço de uma casa em 3h-4h é impossível. Im-pos-sí-vel”. Pois é, mas é assim. Ninguém pagaria por hora mais do que 4h semanais. Isso é perfeitamente suficiente. A não ser que seja um casal super bem empregado, renda dupla e alta. Um casal de amigos nosso (uma médica com um engenheiro) paga um dia inteirinho de ajuda doméstica, duas irmãs tailandesas. Eles podem.

Tem um lado positivo de você se esfalfar tanto, fora e dentro de casa: a economia financeira de uma moeda forte. Mas reconheço: não é um ritmo de vida para todo mundo. Tem que ter boa saúde, ser muito disciplinado, fazer escolhas, abrir mão de muita coisa. Brasileiro acostumado a vida toda a pagar empregadas, jardineiros, passadeiras, cozinheiras etc. vai morar fora do Brasil e não gosta da falta disso, não sabe como se organizar.

Há que se ver também que na Europa, principalmente nas culturas ao norte do continente, predomina o individualismo. É aquela filosofia: “Quem pariu Mateus que crie!” Até há avôs e avós esperando pelos netos no pátio da escola no fim da jornada, para levá-los para casa até que os pais cheguem do trabalho. Mas na Holanda, isso não é regra geral. Sei que na Itália e na Espanha, os avós aposentados ajudam mais, muito mais. Por amor e solidariedade. Os vovôs e vovós aposentados da Holanda querem basicamente curtir a vida, seguindo a filosofia: “Já ralei muito para criar meus filhos, sem a ajuda dos meus pais. Então agora meus filhos que se virem com meus netos, eu vou é curtir a vida!” É um ciclo que se repete: eles reproduzem o estilo de vida no qual foram criados, e quem pensa assim não está necessariamente errado. Cada um decide levar a vida como quiser. Os aposentados na Holanda participam de vários clubinhos, viajam em grupos, decidem se divorciar e ir procurar um novo alguém. Mil aventuras.

Inclusive, já deu para perceber que avós que ajudam na criação dos netos, às vezes são criticados por conhecidos, vizinhos, amigos. Uma vez eu estava comentando com uma holandesa, como uma conhecida minha tinha ajuda dos pais para criar o primeiro filho dela. Essa amiga holandesa, cujos pais são fazendeiros e não têm nem carteira de motorista nem a ajudam pra nada, retrucou: “Essa sua conhecida gosta de vida fácil, hein?! E de não assumir responsabilidades!”. Como assim, “vida fácil?”, perguntei. A minha conhecida trabalhava full time, criava o filho… Essa holandesa crítica, na verdade estava era morrendo de inveja, já que nem os pais dela nem os pais do marido ajudavam para nada, nem para ficar com um netinho durante um par de horas.

Algumas vezes, quando eu ligava para meus sogros e perguntava se eles tal dia poderiam ficar com meu bebê por um par de horas para que eu e meu marido fôssemos resolver algo juntos (um enterro, um casamento, uma ajuda com a mudança de endereço de amigos, etc.)., minha sogra frequentemente respondia: “Tenho que ver na minha agenda.” Agenda? Ela não fazia curso só de yoga uma vez por semana, então eu sentia que era uma indireta do tipo “Não tenho brechas para netos”. Às vezes dizia: “Tenho que ver com meu marido, se ele pode.” Sim, pasmem. Ela sempre curtiu festinhas familiares, viagens com a família, jantar fora com filhos e netos, posar para fotos com os netos – mas não queria ficar com os netos.

De saco cheio com  a impossibilidade de achar babás pagas por hora para uma eventualidade, pensei em pedir na creche do meu segundo baby se poderiam ficar com ela por duas horas no meu dia de folga. Eu teria uma hora de reunião no trabalho, mais meia hora para eu ir, meia hora para voltar… O meu filho mais velho ficaria na casa de um amiguinho. Meu marido, estupidamente, perguntou na creche se excepcionalmente eles poderiam ficar “uma hora” com a baby. Quando a trouxe, esclareci que seriam na verdade duas horinhas, 2h30 no máximo. A reposta, entre dentes: “Apenas duas horas, e nem mais um minuto. Vá rápido!”. Voltei de uma reunião boboca e totalmente dispensável e encontrei minha bebê com a fralda beeem carregadinha, com sede e faminta, e uma funcionária com cara de poucos amigos. Agradeci e fui rapidamente embora. Pensei, decepcionada: “Quantas vezes meu marido já chegou mais cedo do trabalho e pegou as crianças horas mais cedo? Várias! E agora preciso de um favor por um par de horas depois de anos pagando creche e sou tratada assim? Nunca mais!”.

Os anos passaram. Criei meus filhos, viajei muito a trabalho e lazer, mudei para uma casa maior, fiz amigos, mudei de emprego, desfiz alguns amigos, fiz amigos novos. Meus filhos fizeram e fazem todos os clubinhos que quiseram e queriam, vão desde pequenos sozinhos para a escola, eu atualmente levo apenas para dentistas e médicos, a apresentações de dança, estão no melhor caminho possível. Olho para trás e vejo como superei tantas mesquinharias de outras pessoas. Nos álbuns de fotos que fiz quando as crianças eram pequenas, estou sempre sorrindo com minha família. Como consegui? Como tiver energia? Sei lá.

A vida de classe média na Europa não tem glamour, nem muita flexibilidade às vezes. O lazer é com hora marcada! Uma festa na casa dos amigos tem horário em ponto para começar e para terminar. E isso é maravilhoso! O que tem de bom por aqui é segurança pública, estabilidade política, alta cultura muito acessível, trânsito organizado, meio-ambiente preservado, isso sim. Mas ganhar seus eurinhos suados exige muita ralação, pelo menos em países muito produtivos. Há um enorme controle social, competição intensa no trabalho, muita cobrança de perfeccionismo e rapidez, individualismo. Não é fácil. Não tem “glamour”.

Eu constatei muita falta de inteligência emocional de várias pessoas por aqui na Holanda, em relação a solidariedade na vida em família, trabalho, mundo da rua, etc.. Grávidas serem oferecidas assento no ônibus? Esqueça. Meu sogro morreu anos atrás, e minha sogra teve na mesma época que retirar um tumor na cabeça. Por isso, há anos não dirige mais, nem andar de bicicleta pode. Quem a leva para todo lado, todas as semanas? Eu, e os filhos dela. Então ela nunca imaginou que ficaria viúva, velha e dependente um dia? Quando tinha má vontade de ajudar os próprios filhos dela num momento de sufoco com netos, não calculava que mais tarde na vida também ela precisaria de apoio? Falta de inteligência emocional.

Já tive colegas de trabalho (mulheres) que foram reclamar no RH que eu “gastava muito tempo retirando leite com bomba, duas vezes por dia”. O RH tranquilizava essas pessoas, dizendo que isso era permitido por lei, e que só seria por uns meses. Anos mais tarde, duas dessas pessoas venenosas me contactaram em momentos diferentes, sondando o mercado de trabalho e perguntando se eu não sabia de empresas que ofereciam trabalho “part-time” pois tinham se tornado mães, estava tudo muito difícil… Repito: faltou inteligência emocional e maturidade a essas mulheres no passado, porque elas só agem pelo individualismo, que sempre fala muito forte e domina tudo, até o pensamento claro, maduro e a visão a longo prazo.

Então, para quem planeja morar na Europa (ou nos EUA, Canadá, Austrália, Nova Zelândia…) minha visão de mundo é a seguinte: não pense que no início vai conseguir morar num daqueles prédios de Amsterdã à beira de canais, com janelões cercados por roseiras. Nem em Paris com vista para um belo parque. Ou em Barcelona no Eixample. Ou que vai poder pagar uma babá full time na Europa – au pair aqui é coisa para gente muito rica, e creches são bem caras. Férias de verão em hotéis? Só se for por alguns dias. Famílias de 4 indivíduos não passam os 30 dias do verão em hotéis. Passam 1 ou 2 semanas em casinhas alugadas em campings, complementados com apartamentinhos do Airbnb, um par de dias num hotel e olhe lá.

Sonho de alojamento de férias de verão  (acima) x realidade (abaixo)

Casais bem empregados na Holanda só conseguem morar com conforto (um apartamento grande ou casa com quintal, garagem, jardim, três andares, etc.) se geralmente for fora dos grandes centros, nos subúrbios residenciais, e depois da primeira década de vida juntos. O metro quadrado da Holanda é caríssimo, a ocupação do solo é intensa por aqui. No início, jovens famílias moram em apartamentos pequenos, ou em casinhas geminadas onde às vezes nem espaço na frente da casa para estacionar o carro existe. Jardim? Esqueça. São só uns arbustos e talvez gerânios na janela. Lá pelos 35-40 anos é que conseguem morar com mais espaço, mas sempre fora dos grandes centros.

Porta-janela-porta-janela-porta-janela ad eternum et ad infinitum. Assim são as casas geminadas (rijtjeshuizen) que tomam ruas e até quarteirões inteiros em grande monotonia. Quem começa uma hipotecan na Holanda, geralmente esse é  primeiro tipo de casa. É possível que até fique numa casinha dessas para o resto da vida – sendo muito feliz.  

Há uma nova geração entrando no mercado de trabalho que quer decoração mais vazia, jardins bem simples, pois não aguentaram crescer vendo os pais se matando para ter uma casa uma casa maior que uma geminada, toda mobiliada, jardim cheinho, etc.. Assumindo uma hipoteca (que vai ser paga para o resto da vida), ainda dá para viajar no verão todos os anos. Adoro esse estilo de vida, me cai bem. De novo: não agrada todo mundo, pois é praticamente impossível para a maioria fazer uma boa poupança (o custo de vida é caro), conseguir comprar uma casinha de veraneio, pagar empregados – essas três coisas que algumas pessoas assalariadas e bem empregadas ainda conseguem fazer no Brasil e consideram sinônimos de qualidade de vida.

Sorria! Aqui na Holanda os jovens já aprendem a limpar cuidadosamente os vasos sanitários do lar. 

Na Holanda, a qualidade de vida se traduz em, por exemplo, economia estável, segurança nas ruas, estradas bem cuidadas, escola pública e de alta qualidade para todos, etc.. . Na Europa, você vai é limpar MUITO suas janelas, seu jardim, sua privada e aprender a escrever com o dedinho sobre seu carro todo empoeirado: “Dust is beautiful”, arrematando com um coraçãozinho. Faço isso sempre que meu marido ou minha vizinha (o tal do controle social que mencionei acima) dão uma indireta sobre as teias de aranha e pó grudento cobrindo meu carrinho.