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Quando eu saí do Brasil…

03/07/2011

Eve
Berlin, Alemanha
.

Meu pai me disse que eu voltaria no primeiro inverno.

Minha mãe disse para meu irmão que eu só aguentaria uns cinco anos.

Quando eu cheguei na Alemanha…

Meus pais me perguntavam, em toda ligação que eu fazia, quando eu voltaria pra o Brasil.

Meus familiares me perguntavam se eu não já estava pensando em voltar.

Meus „amigos“ nem entravam mais em contato comigo.

Quando eu fui a primeira vez ao Brasil de visita…

Pessoas me diziam que eu tinha voltado porque não tinha aguentado ficar longe de casa.

Minha família exigia que eu fizesse uma viagem dessa todo ano.

Meus pais não queriam me deixar voltar.

E ninguém nunca, em momento algum, me perguntou se eu estava feliz.

Não é sentimentalismo. É percepção.

Se eles não se importam com a minha felicidade, porque se importam tanto que eu volte? Ou era medo de ouvir a minha resposta? Ou talvez as duas opções…

Se me perguntassem, eu responderia: Sim, estou muito feliz. E não, não tenho a mínima ideia se ou quando irei voltar. Não penso nisso agora. Não num momento em que está tudo indo bem pra mim. Tudo mesmo.

Não é uma questão profissional. Oi? Nesse momento, recomeço minha vida profissional fazendo um estágio. Alguém que já teve sua própria empresa… Tá bom pra você? (O que também não significa que é ruim, né)

O que me faz querer ficar aqui é a qualidade de vida que eu nunca alcançaria no Brasil tendo a vida que eu tenho, com a renda familiar que tenho (marido é professor e eu, bom, estagiária). É o respeito ao cidadão e à sua dignidade. É o fato de que a lei aqui vale pra todos. Que os impostos que pagamos são reinvestidos. Mesmo que haja corrupção, ela não soma 1 bilhão de reais por dia! Que a minha liberdade e o meu direito de ir e vir existem, tanto no quesito segurança quanto na disponibilidade de transporte público e estradas sem buracos, sem precisar pagar pedágio ou segurança particular para isso.

É não precisar investir o meu dinheiro para ter uma vida que não é a minha. Porque se você mora em tal lugar e usa certos tipos de roupas, você, simplesmente, não se encaixa.

É por ter o direito de sair descabelada, de calça rasgada e suvaco cabelo (falo mesmo!) e ninguém nem notar sua presença na rua. E se notar, é porque pisou no seu pé e está pedindo desculpas.

Como cidadã consciente, sei quais são os meus direitos. Meus deveres? Cumpri todos e fiz ainda muito mais quando estava no Brasil. Sim, também contribui para que ele melhorasse. Só que, já que estou tendo a oportunidade de estar num lugar como a Alemanha e ainda tendo novas oportunidades, além daquelas que imaginava quando vivia no Brasil, não vejo muitos motivos para voltar agora.

Não precisamos permanecer no mesmo lugar. Edu e Carla já falaram muito bem sobre o assunto. Estou só complementando.

Saudades? Eu sinto, sim. Voltar? Leia o texto de novo.

P.S. Como eu já publiquei texto semelhante no meu blog pessoal e sei que algumas pessoas vão interpretar de outra maneira, respondo antecipadamente: não, eu não rejeito a vida que tive no Brasil, nem as coisas positivas que ele oferece. Estou apenas valorizando as coisas positivas que tenho aqui, dentro de um padrão de vida que eu sempre quis ter sem precisar ganhar 10 mil reais por mês.

14 Comentários leave one →
  1. Leti - Suíça permalink
    03/07/2011 16:36

    Parabéns pelo texto Eve! Gostei muito e concordo com o q vc disse. Adoro o Blog! Abraços!

  2. 03/07/2011 17:28

    Eve
    Gostei muito do seu relato. Eu acredito que muitos brasileiros não se conformam como que para ter uma boa qualidade vida como as pessoas tem em outros países, no Brasil precisa-se de uma fortuna. Por isso acho que muita gente sai. O que eu acho primordial é a segurança que eu acho que não tem preço. E sei, como você disse, que muita gente interpreta de outra maneira e critica. Eu acho que o Brasil é único em certas qualidades mas eu não pude mais aturar os defeitos. Trabalhei como escravo (professor) por mais de uma década, ajudei bastante, ganhei pouco, agora quero algo mais para a minha vida…pelo mesmo motivo nossos avós, bisavós e tataravós deixaram suas terras para ir viver no Brasil não? Por que ser criticado por fazer o mesmo.
    Abração

  3. 03/07/2011 19:38

    Quando vim para a Holanda aprendi muito sobre o comportamento e atitude das pessoas em relação a mim. Meu marido também aprendeu a ver um outro lado dos amigos dele, que ele não conhecia. As pessoas tem percepçoes fragmentadas da realidade e julgam o todo por apenas uma faceta.

  4. 04/07/2011 6:49

    Eu acho o seguinte: Para você entender a cabeça de um soldado, você tem que ir para a guerra. E para você entender a cabeça de um imigrante, você tem que sair do país. Eu noto que meus amigos que já passaram pela experiência de viver no exterior me compreendem muito mais do que os que nunca sairam do país. Também acho que as pessoas gostam de cobrar muito e te exigir as coisas, sem dar uma explicaçao que justifique esta cobrança. É cobrar por cobrar, praticamente uma picuinha, uma tentativa de demonstrar que pode impor suas vontades.

  5. 04/07/2011 12:50

    Tenho muita vontade de sair do país, como acredito que muitos brasileiros também tenham, mas a falta de informação e o medo nos engessam na tentativa de mudar o rumo de nossas vidas. Lendo esse e outros textos daqui do blog que falam das diferenças entre o Brasil e outros países, vemos como nós brasileiros nos acomodamos a tantas coisas erradas que existem aqui: a normalidade como nós vemos a corrupção, ninguém aqui acredita no poder do voto, votamos porque somos obrigados, a falta de educação do povo, ninguém se importa para onde vai seu lixo, pagamos impostos e não reinvindicamos melhorias, achamos normal ver alunos irem para casa mais cedo porque nao tinha merenda, nos conformamos ao acabarmos o nosso carro nas pistas esburacadas e outros problemas que nos fazem ficarmos mais acomodados e estreitam a nossa visão em prol de uma sociedade ideal.

  6. 05/07/2011 14:47

    Estou adorando esta série de textos.
    Sempre ouvimos aquela mesma ladainha de que o brasileiro não se adapta fora do país, que morremos de saudades da “alegria” do Brasil, etc, etc.
    É bom ver opiniões diferentes.
    Vicky

  7. 05/07/2011 17:48

    Ola!
    Descobri este blog ao acaso e adorei!
    Bem, eu estou a 5 anos no Japao, sou de POA-RS, cheguei aqui para ficar no maximo 6 meses, optei por mais um ano, entao mais um, conheci meu marido (que e Americano e tambem so pretendia ficar mais um tempo…) o que aconteceu e que tanto eu quanto ele percebemos que aqui abrimos a porta de nossa casa as 4 da manha e podemos caminhar e caminhas e nada nos acontece, que a vida e mais calma, que as regras mais focadas e que, como agora temos um filho de um ano e meio, que nada paga a paz que se pode ter na vida e por fim, este ano, juntos chegamos a conclusao de que gostamos muito dos nossos paises mas que iremos mesmo e ficar no Japao e nos instalar aqui por definitivo, podemos ate, por motivos profissionais, sairmos do JP por algum tempo a trabalho mas queremos ter nosso lar situado aqui para retornarmos, nosso porto seguro…
    Muito interessante o seu texto, me identifico em muitos pensamentos, mesmo vc estando na Holanda e eu no Japao (que podemos concluir ser totalmente diferente) pois nao me imagino mais vivendo na angustia que vejos meus amigos e familiares vivendo diariamente no BR, as reclamacoes que recebo entre uma conversa e outra; a vida parece tao mais facil aqui, mesmo tendo a barreira da lingua (meu japones nao e dos melhores) aqui eu consigo pagar minhas contas, minha faculdade, me divertir, dormir tranquila e o engracada de tudo isso e que a alguns meses quando tivemos o terremoto seguido de tsunami, 11 de marco de 2011, meus familiares e muitos amigos me ligaram e escreveram pedindo para eu voltar para o BR pelo menos ate o perigo de radiacao da usina nuclear ser sanado e muitos me perguntaram como eu estava tao calma morando em um local que estava tendo mais de 20 tremores diarios am altos niveis??? Bem minha resposta, depois de pensar um pouco foi a seguinte, que apesar de eu amar o Brasil nao consigo fingir que nao vejo o que ele e, e que aqui, mesmo tremendo o tempo todo, mesmo podendo ter um vazamento nuclear vc consegue obter a informacao e ajuda necessaria, vc sabe que os pedios realmente tem material para aguentar tremores fortes, vc sabe que o pais tem uma estrutura para estes momentos e entao vc se sente um pouco mais tranquilo e amparado, entretanto eu perguntei a meus amigos e vcs, como conseguem viver sabendo que o onibus pode ser invadido a todo instante? que nao esta nem seguro andando de carro ou a pe? Afinal, mesmo com esta tragedia aqui no JP, ainda morreu menos pessoas do que se somarmos as mortes anuais do BR em acidentes de carro, brigas, trafico, assaltos, fome, drogas e etc…
    Nao me entendam mal, eu gosto do Brasil, principalmente meu Rio grande do sul, sinto muitas saudades dos meus amigos, familiares e do local em si, mas aqui eu conheci uma coisa chamada paz e nao sei mais viver sem ela.

    obs: desculpem estou em um pc com teclado somente em ingles e estou sem os devidos acentos de nossa lingua…

    Kelen Katsue Lee.

  8. 05/07/2011 17:58

    Olha desculpe, li o seu texto e de outras pessoas e acabei misturando algumas informacoes, coloquei vc na Holanda quando vc esta na Alemanha, em fim, desculpe a errata..
    Kelen Katsue Lee.

  9. 05/07/2011 18:39

    Pessoas, fiquei muito feliz com os comentários que recebi. Realmente, não estava esperando esse retorno (olhem só o meu PS. rsrsrs)
    Que bom saber que não sou um ET. hehehehehe

    Bjs, meu povo!

  10. Leticia Mendonça permalink
    12/07/2011 17:58

    Eve, parabéns pelo texto e pela sinceridade. Tenho uma irmã que mora fora há 4 anos, e hoje, eu entendo a opção que ela fez. Parabéns pela coragem de vocês, de dar um rumo, ou fazer uma opção, sem medo de ser feliz.

  11. Jeanine Almeida permalink
    13/07/2011 7:44

    Oi Eve. Eu moro na NZ e também tenho meu próprio blog onde, assim como vc, fui criticada por muitas pessoas quando comentei que não me via voltando. A nossa percepção sobre o Brasil muda muito quando vivemos fora e começamos a achar coisas que antes eram corriqueiras, simplemente inaceitáveis. Só que o pessoal que nunca morou fora continua banalizando os problemas vergonhosos que existem no Brasil, até por uma questão de sobrevivência. Afinal, se eles não gostarem vão fazer o que?
    Aprendi que quando moramos fora perdemos o direito de reclamar das mesmas coisas que reclamávamos quando estávamos lá e inclusive com as mesmas pessoas. É até engraçado isso. 😉
    Um abraço e seja feliz sempre!

  12. Ana Clara permalink
    18/01/2012 23:21

    Adorei o blog, encontrei por acaso, já morei na Australia e estou querendo voltar no final desse ano, depois de quase 2 anos tentando aplicar a residencia..Tenho uma curiosidade, vcs moram com que tipo de visto? pois esse é meu maior problema, lá morei como estudante e quero voltar residente, mas e nos outros países como funciona ? Amei o Blog !!

  13. Gretel permalink
    22/01/2012 5:29

    Morei um ano mas nao me adaptei muito e realmente sentia muitas saudades, tive uma depressao sazonal e decidi que era melhor voltar mas compreendo perfeitamente quem nao quer voltar, saudade sempre vai ter mas vc fica entre a saudade e a qualidade de vida que vc jamais terá no Brasil,como a questao da segurança mesmo, para mim poder andar tranquilamente naquelas ruas era ouro em pó.

    Se eu gostasse de morar fora e aguentasse frio sinceramente eu somente viria de visitas

  14. Cyro permalink
    03/06/2012 21:35

    Pooo que bacana !!! Mas me diz aí, como fazer pra se mudar pra gringa ???Não tenho faculdade, só completei o ensino médio e me formei num curso de Inglês que durou alguns anos. Dou a cara a tapas, mas me faltam informações essenciais para que possa sair daqui definitivamente. Como documentação, trabalho(comer é bom, né ??rsrs) e a grana pra ir pra gringa !!! Na net o povo fala que vai com 20, 30, 40 mil !!! É muito dinheiro, não tenho como juntar tudo isso sem gastar !!!

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