Eve
Berlin, Alemanha
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Meu pai me disse que eu voltaria no primeiro inverno.

Minha mãe disse para meu irmão que eu só aguentaria uns cinco anos.

Quando eu cheguei na Alemanha…

Meus pais me perguntavam, em toda ligação que eu fazia, quando eu voltaria pra o Brasil.

Meus familiares me perguntavam se eu não já estava pensando em voltar.

Meus „amigos“ nem entravam mais em contato comigo.

Quando eu fui a primeira vez ao Brasil de visita…

Pessoas me diziam que eu tinha voltado porque não tinha aguentado ficar longe de casa.

Minha família exigia que eu fizesse uma viagem dessa todo ano.

Meus pais não queriam me deixar voltar.

E ninguém nunca, em momento algum, me perguntou se eu estava feliz.

Não é sentimentalismo. É percepção.

Se eles não se importam com a minha felicidade, porque se importam tanto que eu volte? Ou era medo de ouvir a minha resposta? Ou talvez as duas opções…

Se me perguntassem, eu responderia: Sim, estou muito feliz. E não, não tenho a mínima ideia se ou quando irei voltar. Não penso nisso agora. Não num momento em que está tudo indo bem pra mim. Tudo mesmo.

Não é uma questão profissional. Oi? Nesse momento, recomeço minha vida profissional fazendo um estágio. Alguém que já teve sua própria empresa… Tá bom pra você? (O que também não significa que é ruim, né)

O que me faz querer ficar aqui é a qualidade de vida que eu nunca alcançaria no Brasil tendo a vida que eu tenho, com a renda familiar que tenho (marido é professor e eu, bom, estagiária). É o respeito ao cidadão e à sua dignidade. É o fato de que a lei aqui vale pra todos. Que os impostos que pagamos são reinvestidos. Mesmo que haja corrupção, ela não soma 1 bilhão de reais por dia! Que a minha liberdade e o meu direito de ir e vir existem, tanto no quesito segurança quanto na disponibilidade de transporte público e estradas sem buracos, sem precisar pagar pedágio ou segurança particular para isso.

É não precisar investir o meu dinheiro para ter uma vida que não é a minha. Porque se você mora em tal lugar e usa certos tipos de roupas, você, simplesmente, não se encaixa.

É por ter o direito de sair descabelada, de calça rasgada e suvaco cabelo (falo mesmo!) e ninguém nem notar sua presença na rua. E se notar, é porque pisou no seu pé e está pedindo desculpas.

Como cidadã consciente, sei quais são os meus direitos. Meus deveres? Cumpri todos e fiz ainda muito mais quando estava no Brasil. Sim, também contribui para que ele melhorasse. Só que, já que estou tendo a oportunidade de estar num lugar como a Alemanha e ainda tendo novas oportunidades, além daquelas que imaginava quando vivia no Brasil, não vejo muitos motivos para voltar agora.

Não precisamos permanecer no mesmo lugar. Edu e Carla já falaram muito bem sobre o assunto. Estou só complementando.

Saudades? Eu sinto, sim. Voltar? Leia o texto de novo.

P.S. Como eu já publiquei texto semelhante no meu blog pessoal e sei que algumas pessoas vão interpretar de outra maneira, respondo antecipadamente: não, eu não rejeito a vida que tive no Brasil, nem as coisas positivas que ele oferece. Estou apenas valorizando as coisas positivas que tenho aqui, dentro de um padrão de vida que eu sempre quis ter sem precisar ganhar 10 mil reais por mês.