Fazia menos 6 graus e com toda aquela poluição eu mal podia ver o fundo da rua. Se não era uma segunda, era com certeza uma terça-feira. Se não eram 9 da manhã, já eram quase 9:30. Eu já estava muito atrasado e, aliás, nos últimos meses o atraso virou uma rotina nas minhas idas ao trabalho. Entrei rapidinho na estação do metrô para não perder o trem – uma das coisas boas de morar em Beijing é que ele sempre vem rápido. Quando eu estava dentro do vagão sabia que algo em mim não ia bem, era uma mistura de tristeza com uma vontade louca de querer sair dali e voltar para minha cama. Naquele dia procurei um lugar vazio e chorei.

Edvan Fleury de Beijing, China @beijing.boy @edvanfleurygame Blog Brasil com Z @blogbrasilcomz

Provavelmente, você já deve ter ouvido alguém dizer: “Engole o choro!” Principalmente quando se é criança.  A gente vê o ato de chorar como uma atitude ligada a fragilidades e por esse motivo, talvez, eu tenha ido procurar um cantinho para disfarçar meu momento de fraqueza. É como se os homens não chorassem.

Esse ano vai fazer 5 anos que sai de minha terra para morar na China. O que ninguém nos diz, ou melhor, a gente não procura saber é que morar no exterior tem seu lado negativo.  Nos últimos anos passei por muitas provações nas quais posso dizer que ajudaram a moldar a minha personalidade e elas me tornaram mais forte e ao mesmo tempo frágil.

Se você perguntar de qualquer pessoa sobre o que ela acha de ir morar no exterior, tenha a certeza que o senso comum vai dizer que é uma experiência incrível e que construir uma nova vida longe de tudo que já conhecemos é sem sombra de dúvida a melhor coisa do mundo.

Isso está certo? Sim! Não vou negar que esse consenso tem lá o seu valor. O que ninguém vai te falar é que ir morar no exterior, de certa maneira, é a coisa mais triste que uma pessoa pode fazer na vida.

Se você que está lendo esse texto já teve essa experiência, se pensar um pouquinho vai concordar com alguns pontos. Morar em outro país nos deixa frágeis, carentes, com aquele sentimento de culpa e uma dorzinha que não passa nunca no coração.

Seja qual for o motivo que te faz ir para longe: estudo, trabalho e etc… saiba que o sentimento será o mesmo. É claro que todos nós que saímos do Brasil para abraçar uma nova pátria o faz por algum motivo e usamos isso como uma forma de justificar nossas fragilidades emocionais. “Eu não vou chorar hoje porque morar aqui foi uma escolha minha” ou “Eu estou aqui porque estou fazendo XXXXX e esse é o meu futuro”.

Uma amiga no Brasil está quase casada com a cara metade que ela escolheu, e recentemente ela teve uma filha. Vendo os comentários dela de felicidade… isso me deixou muito mal. Mal por sentir inveja de querer estar perto dela e não estar lá. Mal por querer também construir aquilo que ela tem.

Minha mãe se distanciou muito com o passar do tempo e o motivo foi para que eu não ficasse triste quando ela estivesse doente ou precisasse de um abraço. Hoje, temos dois oceanos e dois continentes de distância entre nós e por mais que a tecnologia tenha avançado nada supera aquele contato físico que só os corpos juntos proporcionam. Nenhuma máquina ou software vai substituir as emoções que as pessoas sentem quando estão juntas.

Para não demonstrar fraqueza, a sua família vai engolir o choro e dizer falsamente que está tudo bem e que estão felizes com a sua decisão de estar longe, o que na verdade eles querem dizer: “Fique aqui meu filho, não vá.”

Você vai notar que nenhum Natal é mais emocionante do que aquele que você passa com os seus entes queridos.

Quando você morar no exterior, seu coração vai doer quando seus amigos ou sua família perguntar: “Ah, quando você vem aqui para o Brasil?” Por que você sabe que não é tão simples voltar, seja por tempo ou por questões financeiras.

Morar aqui me faz me sentir um filho ruim, descuidado com a minha família.

Não importa o quão cercado de pessoas você esteja, você vai sempre ter aquele momento em que a solidão vai bater a sua porta para te fazer se sentir sozinho. Novas pessoas, novas amizades vão chegar e vão embora na mesma proporção.

O tempo na sua terra de origem vai passar de forma devastadora. Você perderá amigos, familiares e um monte de outras coisas que jamais voltarão e isso te deixará com um sentimento eterno de culpa. Aliás, você não se sentirá mais parte daquele lugar. Isso é um processo natural da vida e não há culpados, pois afinal a vida é produto de nossas escolhas e simplesmente não podemos mudar/prever aquilo que aconteceu.

Inevitavelmente você vai se questionar qual é o seu lugar nesse mundo

World Upside-Down Map Edvan Fleury de Beijing, China @beijing.boy @edvanfleurygame Blog Brasil com Z @blogbrasilcomz

E se você tiver que passar anos fora, você também vai começar a perguntar se realmente toda a bagagem cultural, profissional e financeira que está acumulando vale a pena. Será que vale a pena sacrificar todas as nossas emoções em prol de algo material? Somos egoístas por sairmos de casa? Sim, nós somos em partes egoístas,  e por isso temos que aceitar e conviver com as consequências que isso nos traga, seja para o bem ou para o mal.

Agora voltando à pergunta “Por que ninguém fala do lado ruim de morar no exterior?” e a resposta é simples: lidar com o ruim não é fácil e exige muito preparo, só que ninguém está preparado até que isso aconteça. E, por isso, acredito eu que as pessoas não falam/perguntam sobre isso.

Se depois de ler esse texto você acha que o desafio vale a pena, jogue-se na vida e seja feliz.