Ana Fonseca – Mundo

Esse post de hoje “Como identificar ladrões potenciais na Europa?” poderia ter um subtítulo: “Preconceito ou a vida real?”

Tudo começou quando eu e meu marido decidimos planejar nossa férias de verão desse ano até a Espanha. Ou, mais especificamente: ELE começou a

pensar sobre a costa da Catalunha. Eu não queria (amo a Espanha, diga-se de passagem) pois não pretendo ter que dirigir tanto esse ano, e com crianças. Nunca vamos a grandes capitais com nossas crianças, nunca visitei Paris, Roma, Berlim ou Londres com elas, nem pretendo. São lugares exaustivos para jovens famílias, caros e anda-se muito. Gosto de ir para regiões pitorescas, com cidadezinhas, prainhas, laguinhos, etc.. Meu marido insistiu, argumentou, mostrou boas ofertas… Vamos acabar passando uma semana por lá, numa aldeia na costa, numa casinha alugada pelo Airbnb. E indo de trem passar um ou dois dias inteiros em Barcelona.

Pesquisando na biblioteca local e pela internet, me deparei com conselhos muito enfáticos tanto em guias de viagens impressos em holandês quanto em blogs e colunas em sites brasileiros sobre o risco potencial de “mão leve” que algumas nacionalidades representam em Barcelona. Com destaques para ciganos, ciganas romenas carregando seus bebês, peruanos, marroquinos/argelinos (“moros”) e bósnios. Tá duvidando? Veja aqui em pdf o mapa que o jornal El País publicou alguns anos atrás. Preconceito? Ou simplesmente “a vida como ela é”? Cada um que tire suas próprias conclusões.

Agora me perguntem, por favor me perguntem: e na Holanda? Por acaso não tem batedor de carteira, não? Bom, tem bem menos que lugares como Barcelona. A criminalidade na Holanda é reconhecidamente bem baixinha. Olha, eu ando muito pela Kalverstraat, por exemplo, uma rua de compras na Holanda.  Em mais de 15 anos só **duas** vezes vi situações “de risco” na Kalverstraat. Numa delas, bem no início ainda, depois de sair por alguns metros da praça do Dam, um cara se emparelhou comigo enquanto eu caminhava apressada segurando minha bolsa e guarda-chuva olhando para o chão. Olhei para ele, que estava sorrindo. Fiquei de cara amarrada e na hora ele disse “Olá, está se lembrando de mim?”. Na hora pensei “Um prostituto, tentando descolar algo comigo”. Como nunca tinha vido “mais gordo” na vida e me senti ameaçada, agi em uma fração de segundos, logo que ele terminou a frase dele. Entrei rápido dentro de uma livraria, não sem antes ouvir: “Biiiiitch! You better remember me, cause you’ve hurt me so much!”. Lá dentro da livraria pensei: “Cara, que maluco!”. O sujeito era bem moreno, rosto quadrado, com aspecto indiano. Mas bem que podia ser marroquino ou argelino. Saí quase meia hora depois da loja, meio ressabiada, olhando para os lados, pisando firme e segurando meu guarda-chuva com força.

Assim que cheguei à Holanda, eu era bem mais paranoica com relação a “pick pockets” e roubos sem violência, por distração. Meu marido costumava andar com uma mochila grande, com uma câmera grande dentro (eu não entendia o porquê dele sempre carregar aquele “trambolho” mas anos depois, sou eu que quase sempre faço turismo levando minha Nikon grande e pesada). Entramos numa loja de comida barateira do Suriname e sentamos numa mesa comunal, esperando a comida ficar pronta, batendo papo com uma amiga nossa. Ele deixou a mochila no chão, encostada nas pernas. Chegou um cara, meio cansado, que olhava às vezes para a mochila. Eu falei com meu marido para ele segurar a alça da mochila. Meu marido segurou, mas todo mole, sorrindo… depois de um tempo largou. Eu falei de novo e comecei a olhar séria para o cara, estudando as feições dele. Quando meu marido largou a alça da mochila pela terceira vez, eu fiquei super irritada, avancei para a mochila, peguei do chão e coloquei no meu colo. O carinha que eu andava desconfiada e até então não havia pedido nada para comer (estranho, não?) se levantou e foi embora (aha!). Sim, o cara tinha aspecto antilhano.

Em Sevilha, uns 13 anos atrás, já fui abordada por ciganas que queriam amarrar algo em meu pulso – isso em plena luz do dia e eu cercada de meia dúzia familiares. Meu sogro deu um grito nelas em holandês mandando ir catar coquinho, deu um mega esporro em mim apontando o dedo, foi tudo muito rápido e super constrangedor. Depois, meu sogro me avisou que minha cunhada já tinha sido surrupiada assim, anos atrás na mesma cidade, depois de ter recebidos uma rosinha de presente de ciganas. Aliás, essa mesmíssima cunhada foi surrupiada durante a Féria del Caballo em Jerez sem perceber, como eu já narrei aqui no final desse post. 

Muitos anos atrás, enquanto estávamos no segundo dia de férias em Singapura, minha antiga casa foi arrombada e assaltada. Na volta, ouvimos da polícia que os suspeitos eram “integrantes da antiga Iugoslávia”, ou seja: bósnios e sérvios.

Há vários blogs com várias dicas e alertas de furadas, golpes, assaltos. Descrevendo taxistas que trocam a nota que você acabou de dar e exigem uma maior, ladrões “disfarçados” de turista (com mapa e pau de selfie na mão)…  Mas minha pergunta aqui nesse post de hoje é a seguinte: devemos evitar falar de grupos étnicos malandros com medo de sermos taxados de xenófobos, ou devemos alertar sobre os problemas da vida real dando nomes aos bois?

SERVIÇO: 

Leia também sobre batedores de carteira na Espanha:

http://viagemeturismo.abril.com.br/blog/achados/batedores-de-carteira-na-espanha-as-principais-taticas-usadas-e-como-escapar/

Como evitar golpes no Chile?

https://blogbrasilcomz.com/2017/06/29/5-tipos-de-golpes-contra-turistas-em-santiago/

Esse post está em aberto, e não acaba aqui. Ele será complementado com os comentários dos leitores sobre diversos golpes praticados pela Europa, experiências ruins, dicas de alerta. Os crimes praticados na Europa, principalmente contra turistas, não são violentos (sem armas, agressão física, intimidações) mas aproveitam a distração das vítimas encantadas com tantos monumentos, museus, palácios e arquitetura deslumbrante. Cabe a nós mesmos estarmos prevenidos, sempre.

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Ana Fonseca vive desde 1999 na Holanda.  Sigam o “Brasil com Z” no Facebook para atualizações diárias sobre viver, turistar, estudar e trabalhar no exterior. Vejam fotos dos nossos autores pelo mundo seguindo nossa conta do “Brasil com Z” no Instagram. O blog Brasil com Z dá tuitadas também: http://www.twitter.com/blogbrasilcomz.  Quer participar como autor(a)? Envie-nos uma mini biografia e um texto sincero de apresentação. Caso seu potencial combine com as expectativas do blog, entraremos em contato: blogbrasilcomz@gmail.com Agradecemos!