Ana Fonseca – Holanda

Oi, leitores do BZ. Essa semana eu e meu marido realizamos uns gastos que me inspiraram para um post sobre consumo na Holanda e um traço cultural marcante dos holandeses.

Depois de 16 anos (!) resolvemos que nossos colchões já não davam mais. Vários meses eu estava com dor nas costas pela manhã sem saber ao certo o motivo. Depois da volta da férias, isso ficou mais claro: Nossos colchões (dois de solteiro dentro um box) eram o problema da minha dor na coluna e mau humor. Claro que sabemos que a “idade máxima” de um colchão de molas é uma década, talvez no máximo 12 anos. Mas fomos protelando a compra de novos. Quando, enfim, fomos domingo passado efetuar a compra, essa foi paga com o sistema de débito automático. Foi uma compra grande, e tivemos travesseiros anatômicos e fronhas incluídas de graça.

Comentei dias depois com uma amiga no Brasil sobre isso, minha dor na coluna e necessidade de novos colchões, e ela me falou que coincidentemente também tinha comprado há pouco tempo colchões novos “6 vezes no cartão”. Fiquei surpresa ao ouvir isso, e de lembrar que no Brasil é super normal. 6 vezes, 10 vezes, 24 vezes, e à perder de vista…

Diferente de, por exemplo, dos EUA ou do Brasil onde você pode financiar no crediário um padrão mais alto do que normalmente poderia ter, na Holanda é importante viver abaixo do seu padrão de consumo. Isso porque os pagamentos são sempre à vista, através de “pin card” ou transferência bancária imediata. Pessoal aqui não quer vender nada no cartão nem receber cheques. Foi assim com a nossa segunda grande aquisição na semana que passou. Meu marido (holandês, nascido e criado aqui) queria há meio ano um novo emprego, e foi aprovado numa das solicitações. Mesmo salário, mais desafios interessantes, mas sem o benefício do emprego antigo de “lease auto” e cobertura dos gastos com gasolina. Enfim, o “lease auto” tinha que ser devolvido e tínhamos que comprar um outro carro e rápido. Meu marido optou pela compra de um mesmo tipo de carro, mas usado. O pagamento foi feito com uma maquininha de “scanner” e pago automaticamente e integralmente. Bum! O valor total todo de uma vez. É uma facada no seu orçamento. Fiquei pensando: “E agora espero que nenhum eletrodoméstico pare de funcionar, não tenhamos nenhuma goteira ou rachamento, nenhuma outra mola de colchão na casa quebre, que a infiltração na parede do banheiro não seja séria…”

Enfim, você nunca sabe quando vem um gasto inesperado, nem de onde. Pode ser uma lavadora de roupas que um belo dia quebra, um vazamento ou infiltração na casa, um óculos de grau, uma bicicleta, uma viagem inesperada para o Brasil… Isso tudo tem que ser pago com dinheiro vivo na Holanda. E você precisa ter reservas. Eu olho para minha casa e vejo que algumas coisas vão ter que ser trocadas ou atualizadas nos próximos meses ou um par de anos, no máximo. Minha filha daqui a um ano exatamente vai para o ensino médio, vai carregar quilos e quilos de livros e portanto vai precisar de uma bicicleta maior e mais resistente à longas distâncias, com bolsas laterais e uma cestinha na frente – e não é para carregar tulipinhas não! Uma bike nova são centenas de euros (e ela já teve a cota de bicicletas usadas).

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Meu filho daqui a dois anos já vai poder começar com aulas de direção, e vamos gastar milhares de euros nesse processo. No meu quarto o papel de parede nunca foi do meu gosto, feio de doer, e já está despregando há dois anos. Junto com as cortinas que eram bem sujas (a antiga moradora fumava maços de cigarro no quarto de dormir) e depois de muitas lavagens estão descoloridas aqui e ali e com a bainha encolhida… Podem esgarçar a qualquer momento. Papel de parede e cortinas também são gastos que terão que acontecer mais cedo ou mais tarde, sem dúvida (e sem dívida) nenhuma. À vista.

Por isso tudo, quem vive na Holanda procura sempre economizar meses e anos antes de um novo gasto. Festa de casamento? A conta chega no dia seguinte e para ser paga em 48h no máximo, à vista, nada dessa história de “n” cheques. Quer engravidar? É bom que já tenha um ano antes o suficiente para os móveis do bebê, fraldas, carrinho, enxoval, cadeirinha para o carro… tudo à vista.

Eu ano passado percebi que uma ex-colega de trabalho muito legal tinha voltado a viver na Holanda. Entramos em contato e falei que podíamos nos encontrar em Amsterdam num bar. Ela falou logo que preferia que eu desse uma passadinha no novo endereço dela “para um café, um cookie e botar o papo em dia”. Quando nos encontramos, entre goles de café, ela falou que queria comprar um sofá novo e estava economizando como podia. “Até em comida”, e que iria passar uns 6 meses à base de muitos sanduíches de queijo substituindo muitas refeições sempre que pudesse. Tempo vai, tempo vem, o sofá que ela estava de olho entrou em promoção durante o verão passado. Deu para ela comprar à vista e ainda por cima sobrou grana para uma gravura já emoldurada na mesma parede onde o sofá estaria. Felicidade total para essa amiga, dívida zero.

Claro que as pessoas aqui tem cartão de crédito, mas é mais para viajar para o exterior, e como “última alternativa”.  Holandeses não querem se endividar no cartão nem o varejo funciona assim. E é claro que há aqui pessoas que se endividam, com em qualquer outro lugar do mundo. Mas um traço cultural forte do holandês é ele ser muito previdente e economizar antes de gastar. A preocupação com ostentação por aqui só existe se você puder bancar à vista.

“Atenção! Empréstimos custam dinheiro.” Esse é um anúncio exigido pelo Ministério das Finanças na Holanda, para todo anúncio ou comercial de empresas oferecendo crédito. Até no rádio, depois de um anúncio você ouve: “Pegar empréstimo custa dinheiro!”. Há muito mais holandeses se endividando nessa geração do que na geração passada, principalmente os que estão na faixa dos 20 anos. Se essa advertência é eficiente e faz as pessoas pensarem duas vezes antes de se endividarem, eu não sei. Só sei que é muito bom ver isso na TV ou em revistas em anúncios que nem sempre parecem claramente ser sobre empréstimos.

Por um lado, tudo isso que falei acima (pagar à vista e não utilizar cartão de crédito ou cheques, se privar de certas coisas para ter uma reserva financeira) pode parecer muito limitante. Por outro lado, você tem um panorama mais realista de quanto pode gastar e de quanto realmente é o seu poder de compra – o que pode ser muito sincero consigo mesmo, com seu círculo de amigos e familiares e um grande alívio.

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Assuntos relacionados: leia sobre o custo de vida no Canadá, texto da Tallitha Campos. E também um texto meu:  Ricos, felizes e… Endividados? 

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Tot ziens! 

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Ana Fonseca mora na Holanda e adminsitra o blog “Brasil com Z”. Para ver fotos feitas pelos nossos autores pelo mundo siga o nosso perfil no Instagram. Sigam-nos no Twitter e Facebook para atualizações diárias sobre viver no exterior. Quer participar do blog? Envie-nos uma minibiografia e sua motivação para: blogbrasilcomz@gmail.com