Ana Fonseca – Holanda

Cliché: “Quem viaja, amplia os horizontes”. Eu diria: quem viaja muito, começa a relativizar tudo. Quem vive cercado de muitos estrangeiros, também.

A Holanda é um ótimo exemplo para isso. Por viverem cercados de outras culturas muito grandes (França, Alemanha, Inglaterra e países nórdicos estão a uma par de horas de distância) os holandeses são muito flexíveis e tolerantes em muitas coisas. Eu acho que eles tem uma cultura bem marcante e um modo de viver muito homogêneo – mas não são tão estereotipados como alguns outros povos. Aliás, se tem coisa que holandeses adoram fazer é ir de encontro ao outro – entender o modo de pensar de cada estrangeiro, aprender a língua deles, imitá-los. Claro que isso tem pontos positivos e negativos. Em programas de TV eles adoram imitar americanos famosos, italianos, alemães, tudo. Mas eles mesmos não percebem o sotaque típico que eles têm, os maneirismos, o modo de reagir, falar e pensar sempre igual sobre os mesmos assuntos.

Em outras palavras: os holandeses têm dois pesos e duas medidas para lidar com culturas estrangeiras. Eles não tem pudor nenhum de tentar falar algo em uma língua juntando e inventando coisas “nada a ver”. Um ótimo exemplo disso: um conhecido meu sabia que “a conta” em francês é “l’addition”. Por isso, quando de férias na Itália, achou que pedir “a conta” era… “l’additione” (é “il conto”). Virou para o garçom e disse: “L’additione, per favore”. E achava que podia sair se comunicando assim, pelo mundo afora. Fala coisas como “molto bueno”, “no problemo”, “le ciudad es mucho bonito”. Quando está num restaurante espanhol e finalmente chega a paella, ele diz: “Oley!” (ao invés de “olé” – porque ele diz isso quando chega uma paella à mesa, não tenho a menor ideia). Só que quando um estrangeiro recém chegado tenta falar com ele em holandês, ele ri, diz que não dá para entender nada e muda para o inglês.

Essa holandesa, Wendy van Dijk, enganou dezenas de famosos internacionais. Ela tirou sarro do Jamie Oliver,  Adele, Lionel Richie, atores e cantores americanos, modelos, políticos… Todos acreditaram nessa japonesa fajuta e aloprada. 

Eu desde que comecei a viver aqui, aceitei a mudança de paradigmas e referências para muitas coisas. Outras, nunca. Continuo, por exemplo, achando o pé direito das casas holandesas muito baixo. As escadas são muito estreitinhas e muito altas, horrível. Acho que há um consumo totalmente exagerado de laticínios. Há muitos adultos que ficam tomando leite e iogurte duas, três vezes por dia, todos os dias da semana. A parcimônia em todas as festas e recepções privadas é gritante. O uso de industrializados também. As mulheres usam pouca ou nenhuma maquiagem, não fazem as unhas das mãos e pedicures quase nunca. Isso é bom porque não é uma cultura machista, onde as mulheres são avaliadas pela sua aparência. Elas demonstram auto confiança e despreocupação no dia a dia a esse respeito. Mas porque não usar um pouco de maquiagem numa festa, durante um encontro social? Porque não fazer pedicures durante o verão, nas férias?

Agora, se tem uma coisa que aceitei rápido e sem perceber, é a altura das pessoas holandesas. Comecei a achar super normal. Quando vou de férias para algum lugar que não seja Alemanha ou países nórdicos, acho todo mundo baixinho.

Esse jornalista holandês dando entrevista e tentando ficar acessível à repórteres chineses provavelmente não se considera alto. Ele considera, isso sim, os chineses muito baixinhos, e quis facilitar a vida deles.  Questão de ponto de vista. (Foto de autoria desconhecida. Quem for o autor ou souber quem for o autor pode me avisar que eu dou os créditos).

Eu recentemente fui a uma entrevista obrigatória num bureau de consulta para o final da infância e pré adolescência falar e saber mais sobre o desenvolvimento nessa faixa etária. Fizeram uma projeção da altura da minha filha e disseram que ela provavelmente “não seria alta”, ficando com 1,70m.  Minha filha (10 anos) ficou levemente chateada por saber que irá ficar “baixinha”. Esse fato aconteceu dias antes de eu começar a leitura de um pocket book americano, da Elizabeth Bard. A autora do livro, se dizia na autobiografia “muito alta, com 1,68m”. Eu tive que rir. E tive que ler de novo o parágrafo inteiro. A autora americana morava na França e se achava “muito alta, com 1,68m” no meio de franceses provençais. Eu ri de novo. Ainda que uma mulher se veja mais alta que os locais, mencionar  1,68m como justificativa…

Eu nunca aceitei (entre as milhares de coisas que nunca aceitei no Brasil) o transporte público ruim brasileiro e a adoração por carros. Há um desprezo profundo e total falta de cobrança na melhoria do transporte público. Ou você tem carro, ou vai de avião. Num país de dimensões continentais, percorrer grandes distâncias de trem é inexistente. Absurdo. Apesar de ter um carrinho, a Holanda me cai bem com suas ciclovias e ônibus saindo no minuto.

Também vejo um problema muito grave na quantidade e facilidade de cesáreas no Brasil, campeão mundial nesse tipo de operação desnecessária. Agora, há quem ache “primitivo” um país desenvolvido como a Holanda ter tantos partos naturais via parteira, e em casa. Isso desperta muita raiva, muitas opiniões radicais quando comento o assunto. A maioria das holandesas são totalmente cool sobre não ter anestesia, e parir em casa. Questão de formação cultural e muito investimento do governo nesse aspecto de saúde pública.

Eu poderia aqui falar muito mais a respeito dessas mudanças de percepções de quem mora no exterior. Há sempre coisas que passamos a adotar quase que instantaneamente, outras levam mais tempo. E há uma categoria de hábitos, preferências e percepções que não mudam nunca, principalmente se você vai morar no exterior depois dos 25- 30 anos. Fato.

A nossa autora da Argentina, a Silvia Oliveira, se considera “casi porteña” mas já listou coisas que não gosta em Buenos Aires. O Diogo Rimoli, que mora em Roma, apesar de fã de um carro no Brasil, vive agora na Itália sem carro – e adorando. A Carla Guanais, também em Roma, reluta em aceitar algumas coisas da cidade eterna, numa carta de amor e ódio. O nosso autor do Chile, o Carlos Fernandes, já fez uma postagem inteira criticando coisas inaceitáveis no país. O Fábio Takeshi, da França, tinha medo de esquiar – e agora mudou o medo infundado por paixão. Acho que a Juliana Paula vive altos e baixos na relação dela com a “Incredible India”. A Cris Schlup ama a Alemanha, mas isso não quer dizer que ela ache o país totalmente perfeito. O Edvan Fleury vive nos contando loucurinhas da China. Todos nós aqui no BZ já comentamos momentos de encantos e decepções com os novos países.

Vamos comer uns escorpiõezinhos? Vivos, tá? Ah, parem com o medo de veneno, seus bobos! 

E você(s), leitor(es)? Quais são as suas percepções que mudaram após uma viagem ou estadia no exterior? Quais não mudaram nunca? O que espera aceitar na nova cultura? O que te chocou e ainda te choca? Contem para a gente!

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Ana Fonseca mora na Holanda e administra o blog Brasil com Z. Sigam-nos na nossa página do Facebook para atualizações e dicas diárias sobre estudar e viajar para o exterior. Mais fotos dos nossos blogueiros pelo mundo? Sigam-nos no Instagram. O nosso Twitter está crescendo, sigam-nos lá também. Você é expatriado, gosta muito de escrever e quer participar mensalmente do blog Brasil com Z? Envie-nos então uma mini biografia e um texto de apresentação para blogbrasilcomz@gmail.com Eu entrarei em contato com os melhores candidatos para saber mais detalhes da sua motivação e explicar sobre a possível participação no blog.